Depois de uma pausa desde dezembro, retomamos o Bloco de Notas OS.
E começamos o ano a partir de um problema recorrente no jogo, transversal a diferentes níveis competitivos.
Há contextos em que a progressão ofensiva se torna difícil não apenas por limitações técnicas, mas porque o adversário consegue condicionar o espaço e o tempo nas zonas onde o jogo se decide.
Blocos mais compactos.
Maior densidade interior.
Referências defensivas próximas.
Nestes cenários, as opções reduzem-se, o tempo de decisão encurta e a estrutura ofensiva é constantemente posta à prova.
É aqui que surge o conceito de overload.
Não como solução universal.
Não como princípio base de um modelo.
Mas como uma ferramenta tática para responder a contextos onde o espaço é escasso e o adversário controla as zonas de decisão.
Criar overload não é acumular jogadores à bola.
É organizar mais soluções relevantes no mesmo espaço do que o adversário consegue controlar ao mesmo tempo, forçando-o a decidir entre proteger o espaço, saltar na pressão ou perder uma referência.
É a partir desta lógica que se desenvolve esta edição.
Overload não é acumular jogadores
Um dos erros mais comuns na leitura do overload é confundi-lo com “juntar gente à bola”.
Essa leitura falha porque olha apenas para a quantidade e ignora as decisões que o adversário é forçado a tomar.
Criar overload não é apenas ter mais jogadores na mesma zona.
É organizar mais opções funcionais do que o adversário consegue controlar ao mesmo tempo.
Quando isso acontece, o bloco defensivo é obrigado a decidir:
➡️ se salta na pressão ou se mantém a posição,
➡️ em que timing o faz,
➡️ qual das opções tenta condicionar,
➡️ e qual aceita libertar.
Essas decisões raramente podem ser todas corretas ao mesmo tempo.
O overload não cria vantagem por si só.
Cria um conflito defensivo.
A vantagem surge na leitura desse conflito e na forma como a equipa explora a opção que o adversário foi obrigado a largar.
Overload como ferramenta de manipulação estrutural
O overload só faz sentido quando é construído com uma intenção clara.
Não se trata de criar superioridade de forma aleatória.
Trata-se de desenhar uma situação que obrigue o adversário a escolher.
E, mais importante ainda, de preparar previamente as respostas a cada uma dessas escolhas.
Quando um overload é bem construído, o adversário é empurrado para um dilema:
➡️ se salta na pressão, abre espaço noutro ponto da estrutura;
➡️ se protege o espaço, concede tempo e progressão ao portador;
➡️ se troca referências, perde estabilidade e coordenação;
➡️ se mantém posições, permite continuidade e circulação com vantagem.
Mas estas decisões não têm o mesmo impacto em todo o campo.
O overload ganha verdadeiro valor quando é criado em zonas onde:
➡️ a saída de um jogador desorganiza uma linha;
➡️ a proteção do espaço entra em conflito com a pressão;
➡️ a estrutura defensiva depende de referências claras e sincronização;
➡️ uma hesitação gera desequilíbrio imediato.
É por isso que o overload não é apenas uma ocupação de espaço.
É uma construção intencional de opções, onde o ataque não reage à decisão defensiva, explora-a.
É escolher o ponto do campo onde a estrutura defensiva é menos tolerante à decisão errada e obrigar o adversário a decidir sob essa condição.
Quando o overload é bem construído, o ataque já conhece as duas respostas possíveis:
1️⃣ se o adversário reage de uma forma, existe uma solução;
2️⃣ se reage da outra, existe uma alternativa preparada.
Quando o overload é pensado desta forma, deixa de ser um mecanismo ocasional e passa a ser uma verdadeira ferramenta de manipulação da estrutura adversária.
Exemplos de overload como manipulação da estrutura adversária
1️⃣ Overload no corredor central — PB ofensivo (GR 4.2.4)

Este posicionamento tornou-se cada vez mais comum, muito associado às dinâmicas de saída curta de De Zerbi que hoje em dia já não surpreendem ninguém.
O adversário conhece o desenho.
Conhece as dinâmicas.
Conhece a intenção geral.
E, ainda assim, continua a ser eficaz.
Porquê?
Porque o valor deste overload não está no posicionamento em si, mas na quantidade e qualidade de decisões sucessivas que obriga o adversário a tomar.
Na primeira fase, a equipa em posse cria superioridade numérica clara na zona da bola, envolvendo o Guarda-Redes, a linha defensiva e os dois médios, o que força o bloco adversário a decidir:
➡️ se mantém a linha média baixa e concede tempo à circulação;
➡️ ou se faz saltar um médio (ou dois) para pressionar a saída.
➡️ Se o médio salta, abre-se espaço imediato nas costas, na zona entrelinhas, onde surgem soluções enquadradas para receber e dar continuidade.
Mas o processo não termina aí.
Quando os jogadores entrelinhas recebem e atraem os centrais adversários, surge uma nova decisão defensiva:
➡️ acompanhar por dentro e ser mais agressivo na pressão no corredor central;
➡️ ou manter a linha e proteger a profundidade.
➡️ Se os centrais saltam, a última linha fica exposta aos movimentos de profundidade dos extremos, que atacam o espaço livre nas costas.
O que torna este overload particularmente eficaz é precisamente isto:
"A defesa não é confrontada com uma decisão isolada, mas com uma sequência contínua de escolhas, todas elas com custo estrutural."
A equipa em posse já está preparada para cada uma das respostas possíveis do adversário, ajustando-se à decisão que este toma.
É por isso que, mesmo sendo um posicionamento “na moda” e amplamente reconhecido, continua a funcionar: não porque engana, mas porque esgota a capacidade defensiva de decidir sem se desorganizar.
2️⃣ Overload no corredor central — lateral invertido

O posicionamento do lateral em zonas interiores tem um efeito imediato na estrutura do jogo: empurra jogadores para dentro e densifica o corredor central.
Quando o lateral se junta ao médio defensivo e aos interiores, cria-se com naturalidade a chamada box no corredor central, originando uma superioridade numérica clara nessa zona.
Esta superioridade raramente é compensada pelos extremos adversários.
E a razão é estrutural.
Para o extremo fechar por dentro e equilibrar numericamente o corredor central, teria de abandonar o corredor lateral, abrindo completamente a largura do campo e expondo a última linha defensiva a situações de 1x1 ou progressão fácil pelo exterior.
Perante este dilema, a responsabilidade recai quase sempre sobre os médios.
É aqui que o overload cumpre o seu verdadeiro papel.
Os médios adversários são forçados a decidir:
➡️ se saltam na pressão sobre o jogador mais adiantado da box, libertam espaço imediato nas costas, na zona entrelinhas;
➡️ se protegem o espaço entrelinhas, concedem tempo e condições para a equipa em posse circular, progredir e encontrar soluções de frente para o jogo;
Mais uma vez, o valor do overload não está apenas em ter mais jogadores por dentro.
Está em obrigar o adversário a defender um espaço que não consegue fechar sem se desequilibrar noutro ponto do campo.
O lateral invertido não é apenas uma variação posicional.
É uma forma clara de manipular as responsabilidades defensivas do meio-campo adversário, colocando-o constantemente entre proteger espaço ou pressionar o portador, sabendo que qualquer escolha tem um custo.
3️⃣ Overload no corredor central — falso 9

O falso 9 introduz o overload no corredor central a partir de um ponto sensível da estrutura defensiva: a última linha.
Ao contrário de outros tipos de overload, aqui a superioridade não nasce apenas da acumulação de jogadores por dentro, mas da saída deliberada de um elemento da última linha ofensiva para zonas entrelinhas.
Esse movimento altera imediatamente o sistema de referências defensivas.
Quando o avançado recua, obriga os centrais adversários a decidir:
➡️ se um central acompanha, a linha defensiva perde alinhamento e cria-se espaço nas costas, explorável por movimentos de rutura dos extremos ou interiores;
➡️ se ninguém acompanha, o falso 9 recebe entrelinhas com tempo e enquadramento, reforçando o overload no corredor central e permitindo jogar de frente para a última linha;
Este tipo de overload é particularmente eficaz porque atua sobre a sincronização da última linha, não apenas sobre o número de jogadores.
A defesa deixa de saber se deve proteger profundidade ou espaço interior.
E quando uma linha hesita entre subir e recuar, o espaço vital aparece.
4️⃣ Overload no corredor lateral — dupla largura

A dupla largura, por si só, não cria overload.
Quando lateral e extremo estão simplesmente na mesma linha, abertos, a defesa responde de forma previsível: cada um é acompanhado pela sua referência direta e a estrutura mantém-se estável.
O overload surge quando a dupla largura é ativada por um terceiro elemento que ataca o espaço entre central e lateral.
Esse movimento muda completamente o problema defensivo.
Quando um médio interior ou um avançado aparece nesse espaço híbrido, o lateral adversário é confrontado com uma decisão difícil:
➡️ se salta para fora, para pressionar a largura, abre o espaço interior nas suas costas;
➡️ se fecha por dentro, liberta o corredor lateral;
➡️ se hesita, a equipa em posse ganha tempo e vantagem para progredir.
Este é o momento-chave do overload que não se constrói apenas pela soma de jogadores na ala, constrói-se pela criação deliberada de um conflito de referências entre lateral e central.
5️⃣ Overload no corredor lateral — tripla largura

A tripla largura no corredor lateral só ganha valor quando cada posicionamento cumpre uma função específica.
Não é a presença de três jogadores na ala que cria vantagem.
É a forma como cada um fixa uma referência diferente e prepara a dúvida defensiva.
A lógica base é clara:
➡️ O lateral em posse posiciona-se baixo, para atrair o extremo adversário e retirar-lhe capacidade de fechar por dentro;
➡️ O extremo mantém-se profundo, a fixar o lateral defensivo e a esticar a última linha;
➡️ O terceiro elemento (normalmente um médio) movimenta-se para o corredor lateral, aparecendo num espaço que não tem referência clara.
É este terceiro movimento que quebra a estabilidade defensiva.
A partir daqui, a defesa é obrigada a decidir — e nenhuma decisão é neutra:
➡️ Se o extremo adversário fecha no médio, liberta o lateral em posse para progredir ou conduzir;
➡️ Se o lateral defensivo salta para pressionar o médio, a linha defensiva é obrigada a rodar, criando desajustes no controlo da largura e espaços interiores temporários;
➡️ Se um médio defensivo é arrastado para o corredor lateral, o corredor central fica mais desprotegido para ligar jogo por dentro;
➡️ Se ninguém salta, o médio recebe de frente, com tempo e espaço para decidir.
A tripla largura serve para desorganizar a coordenação defensiva, forçar rotações, criar atrasos na pressão e abrir ligações, seja pelo corredor lateral, seja pelo corredor central.
O overload não é um fim em si mesmo.
É uma ferramenta de leitura do jogo, que só ganha valor quando está ligada à intenção, ao espaço e às reações que queremos provocar no adversário.
Ao longo desta edição, o foco não foi mostrar “o desenho certo”.
Foi mostrar como diferentes tipos de overload colocam problemas diferentes à estrutura defensiva e como o verdadeiro ganho está em antecipar essas respostas, não em reagir a elas.
No fundo, a questão nunca é:
“Quantos jogadores temos nesta zona?”
Mas sim:
“Que decisão estamos a forçar o adversário a tomar… e o que acontece depois?”
É aí que o overload deixa de ser ocupação de espaço e passa a ser manipulação do jogo.
Agora passo a bola para ti:
👉 Responde a este email e diz-me qual o tipo de overload que mais valorizas e porquê?
A tua resposta pode mesmo dar origem a uma próxima edição do Bloco de Notas OS.
📩 Voltamos a encontrar-nos na próxima terça.