Nota #20 - A carta que eu precisava no início

Esta vai ser a última newsletter do ano.

E não é por falta de ideias, nem por falta de vontade.

Dezembro é um mês diferente.

Para mim e para quem está desse lado.

É um mês cheio de ruído: alguns em fechos de época, balanços apressados, calendários congestionados, Natal, passagem de ano, menos foco e menos espaço mental para absorver coisas com profundidade.

E fingir que isso não existe seria desonesto.

Por isso, esta pausa não é apenas uma decisão minha.

É também um gesto de respeito pelo teu tempo.

Porque sei que, nesta fase, as prioridades podem e devem ser outras.

O importante agora é estarmos mais presentes: vocês junto dos vossos, eu junto dos meus.

E porque conteúdos que pedem reflexão merecem ser lidos com calma, não entre interrupções.

Há momentos para acelerar.

E há momentos em que parar faz parte do processo.

Antes de acelerar outra vez, faz sentido pensar melhor sobre a direção.

É isso que esta última newsletter pretende fazer.

Não ensinar nada novo.

Não acrescentar mais ruído.

Apenas criar um momento de reflexão, calmo e honesto, antes de entrarmos no próximo ciclo.

A partir daqui, entro na carta que eu gostava de ter recebido no início da minha carreira… e no plano simples que hoje seguiria para crescer como analista em 2026.

A carta que eu teria querido receber no início

Se pudesse escrever uma carta ao analista que eu era no início, não seria para o motivar.

Seria para o acalmar.

Na altura, ninguém me explicou como é que se cresce realmente nesta profissão.

Achava que crescer era fazer mais: ver mais jogos, cortar mais clips, escrever mais páginas, dominar mais ferramentas.

Trabalhava muito, mas sem perceber bem em que direção.

Confundi volume de trabalho com evolução.

Passei meses a acumular informação sem parar para pensar se aquilo estava, de facto, a ajudar alguém a decidir melhor.

Também procurei respostas nas ferramentas quando ainda não tinha aprendido a fazer as perguntas certas.

Achava que dominar software era sinónimo de ser melhor analista, quando na verdade só estava a acelerar um processo que ainda não tinha critério.

Demorei a perceber que uma boa análise não começa no vídeo.

Começa no foco.

Outro erro foi procurar visibilidade antes de clareza.

Quis mostrar que sabia muito, em vez de garantir que aquilo que entregava era útil.

Quis impressionar, quando o mais importante era simplificar.

Só mais tarde percebi que, nesta área, saber muito não vale nada se não souberes dizer o que importa, no momento certo, à pessoa certa.

E talvez a parte mais difícil de aceitar: nem todo o esforço se transforma automaticamente em crescimento.

Há trabalho que apenas ocupa.

E há trabalho que transforma.

A diferença está no critério com que escolhes o que observar, o que interpretar e o que entregar.

Hoje sei que crescer como analista nunca foi sobre fazer mais.

Foi sobre pensar melhor.

Sobre organizar o olhar, estruturar o processo e aceitar que clareza vale mais do que barulho.

Se tivesse percebido isto mais cedo, teria organizado o meu crescimento de outra forma.

Menos dispersão.

Mais intenção.

E um plano mais simples.

É exatamente sobre esse plano que quero falar a seguir, o plano que hoje seguiria para crescer como analista em 2026.

Quando o crescimento passa a ser uma decisão

Não escrevo isto para ficar preso ao passado.

Escrevo porque o contexto atual da análise empurra muitos analistas para os mesmos atalhos, os mesmos que eu próprio segui durante demasiado tempo.

Hoje há mais ferramentas, mais informação, mais exemplos visíveis de sucesso rápido.

Mas isso não significa que haja mais direção.

Vejo muitos analistas a trabalhar muito, a produzir imenso conteúdo, a acumular cortes, relatórios e métricas… sem nunca pararem para definir para onde estão a crescer.

E isso não é falta de ambição.

É falta de estrutura.

O crescimento não acontece por acaso.

Não acontece porque “um dia alguém vai reparar”.

Não acontece porque se trabalha até tarde ou se sabe usar mais um software.

Acontece quando há intenção consciente.

Quando alguém decide:

➡️ em que tipo de analista quer tornar-se

➡️ que competências quer realmente dominar

➡️ que problemas quer ser capaz de resolver melhor do que os outros

Sem isso, o risco é grande: evoluir muito em esforço, mas pouco em impacto.

Esta carta não serve para olhar para trás com arrependimento.

Serve para assumir uma coisa simples, mas exigente: a partir de agora, o crescimento passa a ser uma escolha.

E é a partir dessa escolha que faz sentido falar de um plano.

Um plano simples.

Realista.

Executável.

Não para impressionar ninguém.

Mas para chegar a 2026 com mais clareza, mais critério e mais controlo sobre o próprio caminho.

O plano simples que eu seguiria para crescer como analista em 2026

Se hoje estivesse a começar, ou se sentisse que estava ocupado mas não a evoluir, este seria o plano que seguiria.

Não é um plano de atalhos.

É um plano de responsabilidade profissional.

1️⃣ Conhecimento profundo do jogo (antes de qualquer ferramenta)

A primeira coisa que eu faria seria aceitar uma verdade desconfortável:

Gostar muito de futebol não faz de ninguém especialista em análise.

Ver muitos jogos não é o mesmo que entendê-los.

Usar vocabulário complexo não é o mesmo que dominar conceitos.

E repetir palavras como “entrelinhas”, “terceiro homem” ou “jogo posicional” não garante compreensão.

Há um viés muito comum nesta área: achar que, por estarmos sempre expostos ao jogo, já o dominamos.

Mas não é por passar dez anos dentro de um hospital que alguém se torna médico.

O conhecimento do jogo exige estudo deliberado.

Exige também humildade intelectual: aceitar que há pessoas que veem melhor, mais fundo e com mais clareza e que isso não nos diminui, pelo contrário, abre caminho para aprender.

Em 2026, o analista que cresce é aquele que está disposto a:

➡️ questionar a sua própria leitura,

➡️ desconstruir o que “acha que sabe”,

➡️ refinar o olhar, não apenas o discurso.

O jogo não recompensa quem fala mais bonito.

Recompensa quem entende melhor.

2️⃣ Construir um método próprio (mesmo que imperfeito)

Depois disso, eu deixaria de trabalhar de forma reativa.

Construiria um método meu.

Não um método perfeito.

Não um método copiado.

Um método funcional.

Porque sem método:

➡️ cada jogo começa do zero,

➡️ cada análise depende do estado emocional,

➡️ cada entrega é diferente da anterior.

Com método:

➡️ o workflow ganha previsibilidade,

➡️ o foco fica mais claro,

➡️ o tempo é melhor gerido,

➡️ a evolução torna-se acumulativa.

Ter um método não é engessar o pensamento.

É libertá-lo do improviso constante.

É saber:

➡️ o que observar,

➡️ como observar,

➡️ como interpretar,

➡️ como entregar.

Mesmo que esse método vá mudar com o tempo (e vai), ele cria uma base.

E sem base, não há crescimento sustentável.

Mais cedo ou mais tarde, todo o analista que quer crescer precisa de um processo.

Não para se limitar mas para pensar melhor.

3️⃣ Ligar diferentes tipos de análise

O mercado mudou e vai continuar a mudar.

Os clubes, com a evolução tecnológica, procuram cada vez mais perfis completos, capazes de: ler o jogo, interpretar dados, cruzar informação, sustentar decisões…

Hoje, trabalhar apenas com texto já não se usa, trabalhar apenas com vídeo já não chega e trabalhar apenas com dados nunca chegou.

O analista relevante é aquele que liga:

➡️ análise tática,

➡️ análise estatística,

➡️ contexto competitivo,

➡️ intenção estratégica.

Os dados ajudam a confirmar ou desafiar leituras.

O vídeo dá contexto ao número.

Separados, são limitados.

Juntos, tornam-se poderosos.

Em 2026, crescer como analista passa por:

➡️ saber fazer perguntas ao jogo,

➡️ saber que métricas ajudam a respondê-las,

➡️ e, sobretudo, saber interpretar a informação, não apenas apresentá-la.

Não é saber usar tudo.

É saber ligar o que importa.

4️⃣ Aprender a comunicar para influenciar decisões

Comunicação não é apenas fazer relatórios e montar vídeos.

É saber: quando falar, o que dizer, a quem dizer, e muitas vezes, o que não dizer.

Uma boa análise pode morrer por excesso de informação, por mau timing, por linguagem inadequada ou por falta de hierarquia.

Comunicar bem é entender o processo de decisão da equipa técnica:

➡️ que tipo de informação ajuda,

➡️ em que momento,

➡️ com que profundidade.

É transformar leitura em ação.

Não em exibição de conhecimento.

O analista cresce quando percebe que o seu trabalho não é mostrar tudo o que viu, mas ajudar alguém a decidir melhor.

Essa é a fronteira entre análise e ruído.

5️⃣ Consistência silenciosa (o pilar que quase ninguém vê)

Por fim, o pilar mais difícil e o menos visível.

Consistência.

Não há crescimento sólido sem repetição de bons processos.

Não há evolução sem paciência.

Não há reconhecimento sustentável sem fiabilidade.

A maioria desiste aqui:

➡️ porque os resultados não são imediatos,

➡️ porque a comparação é constante,

➡️ porque o trabalho consistente raramente é aplaudido no início.

Mas, no médio prazo, o mercado reconhece quem:

➡️ entrega sempre com qualidade,

➡️ cumpre prazos,

➡️ mantém critério,

➡️ não depende de momentos.

Em 2026, destacar-se não será sobre fazer mais barulho.

Será sobre ser confiável.

E isso constrói-se em silêncio, jogo após jogo.

Este não é um plano para parecer melhor.

É um plano para ser melhor.

E não começa em janeiro.

Começa na forma como escolhes pensar o teu crescimento a partir de agora.

Ao longo desta newsletter falei de clareza, de método, de consistência e de crescimento sustentado.

E tudo isso exige, em determinados momentos, parar para consolidar.

Mas também exige saber onde colocar a atenção.

Dezembro não é um mês para acelerar ideias complexas.

É um mês diferente.

Com outro ritmo, outras prioridades e menos espaço mental para aprofundar.

Ignorar isso seria ir contra tudo aquilo em que acredito.

Por isso, esta pausa não é um afastamento.

É uma escolha consciente.

Um gesto de respeito por este tempo e pelas pessoas que estão connosco quando o futebol nos afasta.

Crescer não é estar sempre em movimento.

Às vezes, crescer é saber quando parar.

Ficamos por aqui por este ano.

Desejo-te um feliz Natal e um final de ano vivido com presença, não com pressa.

Em janeiro voltamos.

Com mais foco, mais clareza e mais intenção.

Nós ficamos por aqui, mas vemos-nos em janeiro, no próximo Bloco de Notas.

PS: Trabalho individualmente com analistas e treinadores que querem ganhar clareza no jogo, no método e no modelo. Sessões focadas em leitura tática, organização do processo e ligação entre análise, treino e decisão. Sessão 1:1 - Saber mais

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