Durante anos, jogar direto foi visto como uma opção “pobre”, sinal de falta de ideias ou incapacidade para construir.
Mas o futebol moderno mudou o contexto, e quando o contexto muda, mudam também as soluções.
Hoje, o jogo direto voltou a ganhar espaço não porque as equipas perderam qualidade, mas porque o jogo lhes retirou tempo e retirou espaço.
Pressão alta, marcação HxH em zonas cada vez mais longas, blocos mais agressivos e menos margem para errar na construção curta criaram uma nova realidade: há momentos em que a profundidade é a melhor forma de manipular o adversário e recuperar o controlo do jogo.
E isto não é perceção.
Os dados confirmam a tendência: as bolas longas aumentaram nas principais ligas europeias, e o número de ataques que nascem da profundidade cresceu de forma consistente nas últimas épocas (Opta).
O jogo direto de hoje não é o despejo de há 20 anos.
É um comportamento planeado, treinado e estruturado para explorar exatamente aquilo que o jogo moderno oferece: espaço nas costas de blocos que pressionam cada vez mais alto.
O objetivo desta nota é explicar por que razão isto está a acontecer, o que realmente mudou no jogo e como este padrão deve ser lido, estudado e preparado por quem analisa.
Porque o jogo moderno criou as condições para o jogo direto voltar
O regresso do jogo direto não nasce de uma mudança estética.
Nasce de uma mudança estrutural no próprio jogo.
A pressão alta tornou-se mais coordenada, mais agressiva e mais individualizada.
Cada vez mais equipas pressionam homem-a-homem em zonas altas, arrastando jogadores para fora do seu setor e reduzindo drasticamente os apoios disponíveis na construção curta.
Mas há um ponto essencial…
"O jogo direto moderno não existe sem jogo curto. É o jogo curto que provoca a pressão. É a pressão que abre a profundidade."
As equipas constroem curto não para sair apoiado, mas para:
➡️ atrair o adversário,
➡️ obrigá-lo a aproximar linhas,
➡️ manipular referências individuais,
➡️ e criar duelos na última linha onde acreditam ter vantagem.
Quando o bloco adversário sobe, o espaço deixa de existir entre linhas e passa a existir nas costas das linhas de pressão.
E isto tornou-se um padrão coletivo: as equipas já não procuram apenas “sair da pressão”, procuram provocar a pressão certa para isolar o duelo certo.
É aqui que entram casos como o de Haaland no Manchester City, por exemplo.
Guardiola, perante pressão alta agressiva, utiliza a saída curta para induzir o hxh, fixar jogadores em zonas interiores e criar um corredor limpo para Haaland atacar a profundidade, um duelo que raramente perde.
O jogo direto moderno é isto: atrair para isolar, isolar para finalizar.
De repente, um passe longo deixa de ser uma “alternativa”, e passa a ser a última etapa de uma sequência pensada para criar o duelo mais favorável no local mais difícil de defender.


Ao mesmo tempo, a regra do pontapé de baliza potenciou ainda mais esta lógica.
Com a possibilidade dos centrais iniciarem o seu posicionamento dentro da área, os guarda-redes passaram a:
➡️ ter mais ângulos,
➡️ mais tempo,
➡️ mais condições para manipular referências,
➡️ e mais capacidade para induzir pressão.
O pontapé de baliza deixou de ser uma reposição previsível.
Passou a ser um momento tático de atração , onde a equipa escolhe quem quer trazer para perto… para depois explorar o espaço que fica longe.
Este padrão tem uma consequência direta no recrutamento: os perfis pedidos para quase todas as posições mudaram.
Hoje, a profundidade deixou de ser um recurso e passou a ser um critério de construção de plantel.
O jogo direto não voltou por acidente.
Voltou porque é a resposta mais eficiente ao tipo de pressão que o futebol moderno criou.
E porque permite às equipas controlar onde querem que o jogo se decida: nos duelos que elas escolhem, não nos duelos que o adversário empurra.

O que os dados mostram: não é tendência, é realidade competitiva
Os números confirmam aquilo que o jogo moderno já fazia prever: o jogo direto não está a regressar, está a consolidar-se.
E isto não acontece numa liga isolada. É um padrão europeu, visível quando comparamos as últimas duas épocas nas Big Five.
Nas ligas francesa, italiana, inglesa e alemã, o número de passes longos aumentou de forma consistente:
➡️ Premier League: +8.6% de passes longos tentados
➡️ Ligue 1: +4.7%
➡️ Serie A: +4.1%
➡️ Bundesliga: +2.1%
A única exceção é a La Liga, com uma redução ligeira (-2%), mas ainda assim dentro de um quadro competitivo onde a pressão alta e os blocos intensos também estão a transformar o jogo.
Ou seja: quatro das cinco grandes ligas europeias estão a jogar mais direto do que na época anterior.
E isto valida a ideia central desta nota:
➡️ não é um fenómeno estético,
➡️ não é um acaso,
➡️ é uma adaptação estrutural ao comportamento defensivo moderno.


O caso do Liverpool ajuda a ilustrar a dimensão estratégica deste padrão, não como equipa que mais procura o jogo direto, mas como a equipa contra quem mais se joga direto.
Em 2025-26 enfrentaram 571 passes longos (Opta), o valor mais alto da Premier League e 46 a mais do que qualquer outra equipa.
Além disso, 20.5% dos passes feitos contra o Liverpool foram longos, um indicador claro de que os adversários usam a profundidade como forma de evitar a pressão alta dos Reds ou explorar o espaço nas costas da primeira linha.
Somando estes dados, fica cada vez mais claro que:
O jogo direto deixou de ser exceção. Passou a ser realidade competitiva.
Pressão mais agressiva.
Mais marcação homem-a-homem.
Menos espaço entre linhas.
Mais espaço nas costas delas.
O jogo moderno empurrou as equipas para atacar onde ainda existe vantagem: na profundidade.

A sofisticação do jogo direto: intenção, não improviso
O jogo direto que voltou à elite não tem nada a ver com o “despejo” do passado.
Hoje, a profundidade é uma resposta estratégica ao comportamento do adversário.
As equipas constroem curto para atrair a pressão, ativar referências homem-a-homem e, a partir daí, criar o duelo que querem, no espaço que elas próprias provocaram.
A lógica é simples: atrair → deslocar → isolar → finalizar.
A bola longa deixou de ser fuga.
Passou a ser a etapa final de uma sequência pensada para manipular o bloco adversário e criar um duelo favorável onde o espaço é maior e o tempo de decisão aumenta.
O jogo direto moderno é altamente trabalhado.
Nada é aleatório, tudo é desenhado.
1) Quem queremos isolar? (A intenção)
O ponto de partida não é a bola.
É o jogador que queremos colocar num duelo favorável.
O avançado que ganha metros.
O extremo que vence 1x1 em corrida.
O médio que domina segundas bolas.
O jogo direto começa com uma escolha: “Onde queremos que o jogo se decida?”
2) Como vamos provocar a pressão? (A manipulação)
O jogo curto serve para ativar referências adversárias.
A equipa constrói por dentro para arrastar marcações.
Atrai para um lado para abrir o outro.
A lógica é simples: atrair para deslocar, deslocar para isolar.
3) Que zona queremos expor? Qual a direção do passe? (O espaço-alvo)
Cada pressão deixa uma zona vulnerável: A equipa decide onde quer que a bola caia antes de a bola sair.
O passe longo tem de ser um passe para alguém e para algum lugar:
➡️ para o duelo que escolhemos
➡️ para o espaço que provocámos
➡️ para a zona onde sabemos que a segunda bola pode ser nossa
Não é um alívio.
É um lance dirigido dentro de uma sequência tática.
4) Segunda bola: a fase onde se ganham ataques
Nenhuma equipa joga direto sem trabalhar a segunda bola.
Quem chega primeiro?
Quem fecha por dentro?
Quem estabiliza a transição?
As equipas de elite posicionam os médios antes da bola sair longa, não depois.
A segunda bola é onde o jogo direto se transforma em ataque organizado.
5) Os perfis que o jogo moderno exige
A profundidade deixou de ser um detalhe.
Passou a ser um critério de construção de plantel.
➡️ Centrais rápidos e fortes em situações de 1x1
➡️ Laterais que ganham duelos longos
➡️ Médios que fixam pressão e saltam à segunda bola
➡️ Avançados agressivos na desmarcação e no duelo físico
➡️ GR que manipula a pressão e executa passe longo com precisão
O jogo direto deixou de ser uma alternativa.
É uma forma ativa de condicionar o adversário, criar o duelo desejado e definir onde o jogo se decide.
O que isto muda para o analista
O regresso do jogo direto não muda apenas o jogo, muda também o que se deve observar.
O que observar na própria equipa
O papel do analista é clarificar em que condições jogar longo cria mais vantagem do que insistir curto.
Isso implica observar três dimensões:
1) Quando a profundidade cria mais vantagem do que o jogo apoiado
O analista deve perceber:
➡️ em que momentos a pressão adversária retira soluções curtas
➡️ se o jogo curto está realmente a provocar a pressão desejada
➡️ que jogadores ganham duelos nas costas da pressão adversária
➡️ que zonas geram quedas de segunda bola mais favoráveis
➡️ quando a saída curta está a atrair demasiado risco sem gerar benefício
A pergunta-chave é:
"Estamos a provocar a pressão que queremos ou apenas a sofrer a pressão que o adversário quer?"
2) A estrutura da equipa após a bola longa
O jogo direto moderno não termina no passe longo, começa nele.
O analista deve avaliar:
➡️ posicionamento dos médios antes da bola sair
➡️ coordenação para reagir à segunda bola
➡️ organização da transição ofensiva após a recuperação
➡️ equilíbrio defensivo caso a segunda bola seja perdida
A qualidade do jogo direto depende menos do passe e mais da estrutura que existe antes e depois dele.
3) Coerência entre intenção e execução
Cada bola longa deve ter uma intenção:
➡️ para quem vai
➡️ por que razão vai para ele
➡️ o que queremos provocar depois
Se a intenção não corresponde ao comportamento, o analista precisa de mostrar isso.
O jogo direto não funciona sem critério.
E é o analista que revela esse critério.
O que observar no adversário
Quando a profundidade volta a ser relevante, o adversário passa a oferecer fragilidades diferentes e muitas delas são previsíveis.
O papel do analista é identificá-las antes do jogo.
1) Quem perde em profundidade
A profundidade expõe:
➡️ Quem tem dificuldade nos duelos individuais
➡️ centrais lentos na recuperação
➡️ defesas que saltam demasiado na pressão
➡️ laterais que fecham tarde
➡️ equipas que sobem a linha sem coordenação
A pergunta é:
"Quem podemos isolar num duelo que nos favorece?"
2) Identificar fragilidades quando pressionam alto
➡️ expõe espaço nas costas
➡️ expõe espaço nos corredores laterais se a pressão não é coordenada
➡️ acompanham marcação HxH até zonas profundas
➡️ ficam desorganizados quando algum elemento especifico salta para pressionar
➡️ se o GR se posiciona alto ou baixo na gestão da profundidade
➡️ como reagem às segundas bolas…
3) Padrões que se repetem e que podem ser explorados
A análise de adversário existe para antecipar cenários.
Por isso, a pergunta estrutural é:
"O que esta equipa repete que nós podemos transformar em vantagem?"
Tipo de métricas que importam no jogo direto moderno
O jogo direto é uma das fases onde a análise estatística é mais útil, porque permite medir comportamentos de forma objetiva.
Mas nenhuma métrica explica vantagem por si só.
Ela só ganha valor quando é ligada ao plano de jogo.
O analista deve monitorizar, entre outras:
➡️ % de bolas longas direcionadas
(para perceber se o jogo direto é intencional ou reativo)
➡️ sucesso nos duelos na zona-alvo
(a bola longa só vale se chega ao jogador certo com vantagem)
➡️ taxa de segundas bolas recuperadas
(o que realmente define se uma bola longa vira ataque ou defesa)
➡️ zonas onde a equipa ganha mais vantagem após jogar longo
(corredor direito? esquerdo? corredor central? depende do perfil dos duelos e da estrutura)
➡️ comportamento do adversário após bola longa
➡️ eficácia das sequências “atrair → isolar → profundidade”
(quantas vezes esta lógica, trabalhada em treino, gera vantagem real?)
Mais do que medir, o analista deve interpretar:
"O que estes números significam para a forma como queremos jogar?"
Sem contexto, uma percentagem é apenas uma percentagem.
Com contexto, torna-se um critério de decisão.
O jogo direto não regressou porque o futebol recuou. Regressou porque evoluiu.
O aumento da pressão alta, a marcação homem-a-homem e a redução do tempo para decidir criaram um jogo onde a profundidade voltou a ser espaço de vantagem.
As equipas deixaram de jogar longo por necessidade.
Jogam longo por intenção.
A bola direta moderna é uma sequência tática: atrair para deslocar, deslocar para isolar, isolar para finalizar.
É uma resposta ao contexto competitivo e uma forma de controlar onde o jogo se vai decidir, nos duelos que queremos, não nos que o adversário escolhe.
O jogo direto não é a alternativa ao jogo posicional.
É parte do jogo posicional.
Não é regressão.
É adaptação.
É evolução.
É estratégia.
E isto muda tudo: a vantagem já não está em sair sempre curto, está em sair para onde existe vantagem.
Nós ficamos por aqui, mas vemos-nos na próxima terça-feira, no próximo Bloco de Notas.