Nota #19 - O jogo direto não voltou por acaso

Durante anos, jogar direto foi visto como uma opção “pobre”, sinal de falta de ideias ou incapacidade para construir.

Mas o futebol moderno mudou o contexto, e quando o contexto muda, mudam também as soluções.

Hoje, o jogo direto voltou a ganhar espaço não porque as equipas perderam qualidade, mas porque o jogo lhes retirou tempo e retirou espaço.

Pressão alta, marcação HxH em zonas cada vez mais longas, blocos mais agressivos e menos margem para errar na construção curta criaram uma nova realidade: há momentos em que a profundidade é a melhor forma de manipular o adversário e recuperar o controlo do jogo.

E isto não é perceção.

Os dados confirmam a tendência: as bolas longas aumentaram nas principais ligas europeias, e o número de ataques que nascem da profundidade cresceu de forma consistente nas últimas épocas (Opta).

O jogo direto de hoje não é o despejo de há 20 anos.

É um comportamento planeado, treinado e estruturado para explorar exatamente aquilo que o jogo moderno oferece: espaço nas costas de blocos que pressionam cada vez mais alto.

O objetivo desta nota é explicar por que razão isto está a acontecer, o que realmente mudou no jogo e como este padrão deve ser lido, estudado e preparado por quem analisa.

Porque o jogo moderno criou as condições para o jogo direto voltar

O regresso do jogo direto não nasce de uma mudança estética.

Nasce de uma mudança estrutural no próprio jogo.

A pressão alta tornou-se mais coordenada, mais agressiva e mais individualizada.

Cada vez mais equipas pressionam homem-a-homem em zonas altas, arrastando jogadores para fora do seu setor e reduzindo drasticamente os apoios disponíveis na construção curta.

Mas há um ponto essencial…

"O jogo direto moderno não existe sem jogo curto. É o jogo curto que provoca a pressão. É a pressão que abre a profundidade."

As equipas constroem curto não para sair apoiado, mas para:

➡️ atrair o adversário,

➡️ obrigá-lo a aproximar linhas,

➡️ manipular referências individuais,

➡️ e criar duelos na última linha onde acreditam ter vantagem.

Quando o bloco adversário sobe, o espaço deixa de existir entre linhas e passa a existir nas costas das linhas de pressão.

E isto tornou-se um padrão coletivo: as equipas já não procuram apenas “sair da pressão”, procuram provocar a pressão certa para isolar o duelo certo.

É aqui que entram casos como o de Haaland no Manchester City, por exemplo.

Guardiola, perante pressão alta agressiva, utiliza a saída curta para induzir o hxh, fixar jogadores em zonas interiores e criar um corredor limpo para Haaland atacar a profundidade, um duelo que raramente perde.

O jogo direto moderno é isto: atrair para isolar, isolar para finalizar.

De repente, um passe longo deixa de ser uma “alternativa”, e passa a ser a última etapa de uma sequência pensada para criar o duelo mais favorável no local mais difícil de defender.

Ao mesmo tempo, a regra do pontapé de baliza potenciou ainda mais esta lógica.

Com a possibilidade dos centrais iniciarem o seu posicionamento dentro da área, os guarda-redes passaram a:

➡️ ter mais ângulos,

➡️ mais tempo,

➡️ mais condições para manipular referências,

➡️ e mais capacidade para induzir pressão.

O pontapé de baliza deixou de ser uma reposição previsível.

Passou a ser um momento tático de atração , onde a equipa escolhe quem quer trazer para perto… para depois explorar o espaço que fica longe.

Este padrão tem uma consequência direta no recrutamento: os perfis pedidos para quase todas as posições mudaram.

Hoje, a profundidade deixou de ser um recurso e passou a ser um critério de construção de plantel.

O jogo direto não voltou por acidente.

Voltou porque é a resposta mais eficiente ao tipo de pressão que o futebol moderno criou.

E porque permite às equipas controlar onde querem que o jogo se decida: nos duelos que elas escolhem, não nos duelos que o adversário empurra.

O que os dados mostram: não é tendência, é realidade competitiva

Os números confirmam aquilo que o jogo moderno já fazia prever: o jogo direto não está a regressar, está a consolidar-se.

E isto não acontece numa liga isolada. É um padrão europeu, visível quando comparamos as últimas duas épocas nas Big Five.

Nas ligas francesa, italiana, inglesa e alemã, o número de passes longos aumentou de forma consistente:

➡️ Premier League: +8.6% de passes longos tentados

➡️ Ligue 1: +4.7%

➡️ Serie A: +4.1%

➡️ Bundesliga: +2.1%

A única exceção é a La Liga, com uma redução ligeira (-2%), mas ainda assim dentro de um quadro competitivo onde a pressão alta e os blocos intensos também estão a transformar o jogo.

Ou seja: quatro das cinco grandes ligas europeias estão a jogar mais direto do que na época anterior.

E isto valida a ideia central desta nota:

➡️ não é um fenómeno estético,

➡️ não é um acaso,

➡️ é uma adaptação estrutural ao comportamento defensivo moderno.

O caso do Liverpool ajuda a ilustrar a dimensão estratégica deste padrão, não como equipa que mais procura o jogo direto, mas como a equipa contra quem mais se joga direto.

Em 2025-26 enfrentaram 571 passes longos (Opta), o valor mais alto da Premier League e 46 a mais do que qualquer outra equipa.

Além disso, 20.5% dos passes feitos contra o Liverpool foram longos, um indicador claro de que os adversários usam a profundidade como forma de evitar a pressão alta dos Reds ou explorar o espaço nas costas da primeira linha.

Somando estes dados, fica cada vez mais claro que:

O jogo direto deixou de ser exceção. Passou a ser realidade competitiva.

Pressão mais agressiva.

Mais marcação homem-a-homem.

Menos espaço entre linhas.

Mais espaço nas costas delas.

O jogo moderno empurrou as equipas para atacar onde ainda existe vantagem: na profundidade.

A sofisticação do jogo direto: intenção, não improviso

O jogo direto que voltou à elite não tem nada a ver com o “despejo” do passado.

Hoje, a profundidade é uma resposta estratégica ao comportamento do adversário.

As equipas constroem curto para atrair a pressão, ativar referências homem-a-homem e, a partir daí, criar o duelo que querem, no espaço que elas próprias provocaram.

A lógica é simples: atrair → deslocar → isolar → finalizar.

A bola longa deixou de ser fuga.

Passou a ser a etapa final de uma sequência pensada para manipular o bloco adversário e criar um duelo favorável onde o espaço é maior e o tempo de decisão aumenta.

O jogo direto moderno é altamente trabalhado.

Nada é aleatório, tudo é desenhado.

1) Quem queremos isolar? (A intenção)

O ponto de partida não é a bola.

É o jogador que queremos colocar num duelo favorável.

O avançado que ganha metros.

O extremo que vence 1x1 em corrida.

O médio que domina segundas bolas.

O jogo direto começa com uma escolha: “Onde queremos que o jogo se decida?”

2) Como vamos provocar a pressão? (A manipulação)

O jogo curto serve para ativar referências adversárias.

A equipa constrói por dentro para arrastar marcações.

Atrai para um lado para abrir o outro.

A lógica é simples: atrair para deslocar, deslocar para isolar.

3) Que zona queremos expor? Qual a direção do passe? (O espaço-alvo)

Cada pressão deixa uma zona vulnerável: A equipa decide onde quer que a bola caia antes de a bola sair.

O passe longo tem de ser um passe para alguém e para algum lugar:

➡️ para o duelo que escolhemos

➡️ para o espaço que provocámos

➡️ para a zona onde sabemos que a segunda bola pode ser nossa

Não é um alívio.

É um lance dirigido dentro de uma sequência tática.

4) Segunda bola: a fase onde se ganham ataques

Nenhuma equipa joga direto sem trabalhar a segunda bola.

Quem chega primeiro?

Quem fecha por dentro?

Quem estabiliza a transição?

As equipas de elite posicionam os médios antes da bola sair longa, não depois.

A segunda bola é onde o jogo direto se transforma em ataque organizado.

5) Os perfis que o jogo moderno exige

A profundidade deixou de ser um detalhe.

Passou a ser um critério de construção de plantel.

➡️ Centrais rápidos e fortes em situações de 1x1

➡️ Laterais que ganham duelos longos

➡️ Médios que fixam pressão e saltam à segunda bola

➡️ Avançados agressivos na desmarcação e no duelo físico

➡️ GR que manipula a pressão e executa passe longo com precisão

O jogo direto deixou de ser uma alternativa.

É uma forma ativa de condicionar o adversário, criar o duelo desejado e definir onde o jogo se decide.

O que isto muda para o analista

O regresso do jogo direto não muda apenas o jogo, muda também o que se deve observar.

O que observar na própria equipa

O papel do analista é clarificar em que condições jogar longo cria mais vantagem do que insistir curto.

Isso implica observar três dimensões:

1) Quando a profundidade cria mais vantagem do que o jogo apoiado

O analista deve perceber:

➡️ em que momentos a pressão adversária retira soluções curtas

➡️ se o jogo curto está realmente a provocar a pressão desejada

➡️ que jogadores ganham duelos nas costas da pressão adversária

➡️ que zonas geram quedas de segunda bola mais favoráveis

➡️ quando a saída curta está a atrair demasiado risco sem gerar benefício

A pergunta-chave é:

"Estamos a provocar a pressão que queremos ou apenas a sofrer a pressão que o adversário quer?"

2) A estrutura da equipa após a bola longa

O jogo direto moderno não termina no passe longo, começa nele.

O analista deve avaliar:

➡️ posicionamento dos médios antes da bola sair

➡️ coordenação para reagir à segunda bola

➡️ organização da transição ofensiva após a recuperação

➡️ equilíbrio defensivo caso a segunda bola seja perdida

A qualidade do jogo direto depende menos do passe e mais da estrutura que existe antes e depois dele.

3) Coerência entre intenção e execução

Cada bola longa deve ter uma intenção:

➡️ para quem vai

➡️ por que razão vai para ele

➡️ o que queremos provocar depois

Se a intenção não corresponde ao comportamento, o analista precisa de mostrar isso.

O jogo direto não funciona sem critério.

E é o analista que revela esse critério.

O que observar no adversário

Quando a profundidade volta a ser relevante, o adversário passa a oferecer fragilidades diferentes e muitas delas são previsíveis.

O papel do analista é identificá-las antes do jogo.

1) Quem perde em profundidade

A profundidade expõe:

➡️ Quem tem dificuldade nos duelos individuais

➡️ centrais lentos na recuperação

➡️ defesas que saltam demasiado na pressão

➡️ laterais que fecham tarde

➡️ equipas que sobem a linha sem coordenação

A pergunta é:

"Quem podemos isolar num duelo que nos favorece?"

2) Identificar fragilidades quando pressionam alto

➡️ expõe espaço nas costas

➡️ expõe espaço nos corredores laterais se a pressão não é coordenada

➡️ acompanham marcação HxH até zonas profundas

➡️ ficam desorganizados quando algum elemento especifico salta para pressionar

➡️ se o GR se posiciona alto ou baixo na gestão da profundidade

➡️ como reagem às segundas bolas…

3) Padrões que se repetem e que podem ser explorados

A análise de adversário existe para antecipar cenários.

Por isso, a pergunta estrutural é:

"O que esta equipa repete que nós podemos transformar em vantagem?"

Tipo de métricas que importam no jogo direto moderno

O jogo direto é uma das fases onde a análise estatística é mais útil, porque permite medir comportamentos de forma objetiva.

Mas nenhuma métrica explica vantagem por si só.

Ela só ganha valor quando é ligada ao plano de jogo.

O analista deve monitorizar, entre outras:

➡️ % de bolas longas direcionadas

(para perceber se o jogo direto é intencional ou reativo)

➡️ sucesso nos duelos na zona-alvo

(a bola longa só vale se chega ao jogador certo com vantagem)

➡️ taxa de segundas bolas recuperadas

(o que realmente define se uma bola longa vira ataque ou defesa)

➡️ zonas onde a equipa ganha mais vantagem após jogar longo

(corredor direito? esquerdo? corredor central? depende do perfil dos duelos e da estrutura)

➡️ comportamento do adversário após bola longa

➡️ eficácia das sequências “atrair → isolar → profundidade” 

(quantas vezes esta lógica, trabalhada em treino, gera vantagem real?)

Mais do que medir, o analista deve interpretar:

"O que estes números significam para a forma como queremos jogar?"

Sem contexto, uma percentagem é apenas uma percentagem.

Com contexto, torna-se um critério de decisão.

O jogo direto não regressou porque o futebol recuou. Regressou porque evoluiu.

O aumento da pressão alta, a marcação homem-a-homem e a redução do tempo para decidir criaram um jogo onde a profundidade voltou a ser espaço de vantagem.

As equipas deixaram de jogar longo por necessidade.

Jogam longo por intenção.

A bola direta moderna é uma sequência tática: atrair para deslocar, deslocar para isolar, isolar para finalizar.

É uma resposta ao contexto competitivo e uma forma de controlar onde o jogo se vai decidir, nos duelos que queremos, não nos que o adversário escolhe.

O jogo direto não é a alternativa ao jogo posicional.

É parte do jogo posicional.

Não é regressão.

É adaptação.

É evolução.

É estratégia.

E isto muda tudo: a vantagem já não está em sair sempre curto, está em sair para onde existe vantagem.

Nós ficamos por aqui, mas vemos-nos na próxima terça-feira, no próximo Bloco de Notas.

PS: Trabalho individualmente com analistas e treinadores que querem ganhar clareza no jogo, no método e no modelo. Sessões focadas em leitura tática, organização do processo e ligação entre análise, treino e decisão. Sessão 1:1 - Saber mais

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