Nota #16 - O erro que separa a análise tática da análise de dados

Nos últimos anos, o futebol criou uma espécie de linha invisível dentro do próprio processo de análise.

De um lado, os que afirmam que “os dados vão substituir o vídeo”.

Do outro, os que garantem que “os números não servem para nada”.

E no meio disto, muitos analistas ficam presos entre duas linguagens como se precisassem de escolher um lado.

Se usam dados demais, são acusados de perder sensibilidade e leitura tática.

Se usam apenas o vídeo, são vistos como ultrapassados.

Este conflito não divide o futebol mas divide quem tenta entendê-lo.

A análise tática e a análise de dados não são rivais.

São ferramentas diferentes, com funções diferentes, que respondem a perguntas diferentes.

➡️ O vídeo mostra o comportamento.

➡️ Os dados mostram o padrão.

E o jogo só se revela por completo quando ligamos os dois.

A tensão entre estes mundos não nasce da ferramenta.

Nasce da assimetria de domínio.

Quando um analista domina apenas um lado, só vídeo ou só dados, é natural que sinta desconforto com o outro.

Não porque o outro lado seja inútil, mas porque obriga a evoluir.

É aí que surge a fricção real:

➡️ Alguns rejeitam os dados porque não os dominam.

➡️ Outros rejeitam o vídeo porque não conseguem interpretar o jogo para além do números

➡️ E muitos defendem “o seu lado” para não expor a lacuna que têm no outro.

Isto não é crença.

É competência.

E no futebol, como em qualquer área de alto rendimento, quem não evolui fica para trás.

No fundo, o que separa analistas hoje não é a ferramenta que usam.

É a capacidade, ou incapacidade, de integrar mundos diferentes para aumentar a clareza.

O que é realmente a Análise de Dados e porque não faz o mesmo que a análise tática

Se a análise tática trabalha sobre relações, intenções e comportamentos, a análise de dados trabalha sobre recorrência, probabilidade e impacto.

Onde a análise tática pergunta “porquê?”, a análise de dados pergunta “quanto?”.

Enquanto o vídeo nos mostra a forma como a equipa se comporta, os dados mostram-nos quão estável esse comportamento é, em que zonas se repete, e com que impacto no rendimento.

O que a análise de dados realmente faz

Em vez de olhar para a jogada isolada, os dados procuram aquilo que se repete:

➡️ tendências estruturais

➡️ zonas de maior recorrência

➡️ padrões temporais

➡️ desequilíbrios estatísticos

➡️ consistência (ou falta dela)

➡️ impacto real no resultado

Perguntas típicas:

“Onde se inicia a maior parte dos ataques?”

“Com que frequência a equipa perde bolas em zonas perigosas?”

“Qual é a efetividade real da pressão?”

“Qual tendência é estrutural e qual é apenas ruído?”

Os dados transformam perceção em evidência.

Exemplos que mostram a diferença

A análise tática pode mostrar-te que o adversário consegue encontrar o médio por dentro algumas vezes.

A análise de dados diz-te quantasem que zonasem que minutoscontra que estruturas e com que consequência.

A análise tática identifica que a equipa sofre muito nas costas.

Os dados revelam que 60% dos expected goals sofridos vêm de bolas diretas para a mesma zona.

O vídeo explica o mecanismo.

Os dados explicam a magnitude do problema.

Onde os dados veem o que o vídeo não consegue medir

➡️ quantas receções adversárias sem pressão entrelinhas

➡️ quantas perdas perigosas surgem de variações lentas

➡️ qual é a eficácia real do pressing

➡️ que padrões anunciam problemas futuros

➡️ tendências que o olho humano não consegue quantificar

➡️ (…)

Os dados não servem apenas para descrever.

Servem para detetarconfirmaralertar e prever.

Onde a análise de dados falha e porque não pode caminhar sozinha

Os dados tornaram-se indispensáveis no futebol.

Mas confiar apenas neles é ficar a ver metade do jogo.

Aqui estão as limitações reais, as que realmente influenciam decisões.

1) Os dados não leem intenção

Sabem o que aconteceu.

Mas não sabem porque aconteceu.

Dois passes iguais no mapa podem ter intenções completamente diferentes:

➡️ um para atrair, outro para acelerar

➡️ um para fixar, outro para progredir

➡️ um seguro, outro agressivo

Os dados registam o evento.

A análise tática lê a intenção.

E é a intenção que revela o modelo, a lógica e a identidade de jogo.

2) Não distinguem tendência de coincidência

Se algo apareceu 3 ou 4 vezes… É padrão… ou é acaso?

O dataset não sabe.

Ele apenas diz: “aconteceu X vezes”.

Quem distingue tendência de acaso é o vídeo, a leitura contextual.

Sem isto, os dados geram diagnósticos errados e conclusões precipitadas.

3) Não captam comportamentos que não geram evento

A maioria do jogo não aparece num dataset:

➡️ manipulações sem bola

➡️ dinâmicas de pressão

➡️ coordenações entre setores

➡️ movimentos que criam espaço mas não recebem

➡️ relações posicionais

Nada disto entra num Excel.

Mas tudo isto muda a jogada.

4) Transformam o jogo apenas no que é mensurável

E isto cria um problema grave:

"Se não mede, não existe."

Mas no futebol, muita coisa importante não é mensurável.

A leitura do ritmo, a ameaça posicional, a decisão sem toque, o impacto de um jogador só pelo posicionamento…

Tudo isso existe e é decisivo.

5) Sem contexto, os números enganam

Um dado sem vídeo pode dizer:

➡️ “o extremo perde muita bola” - mas joga sempre em risco alto porque o modelo pede isso

➡️ “o pivot tem poucas ações defensivas” - porque controla espaços e não precisa intervir

Os números descrevem o que existe.

A tática explica o que significa.

6) Dados não mudam comportamentos

Treinadores e jogadores mudam com imagens, não com tabelas.

Um vídeo de 4 segundos altera mais do que uma métrica de 40 linhas.

O dado pode alertar.

O vídeo é que ensina.

⚙️ Ideia-chave

 

Os dados veem longe. A análise tática vê fundo.

Sem profundidade, o número engana. Sem escala, o vídeo perde padrões.

E é por isso que nenhum destes mundos faz sentido sozinho.

O ponto central: a ponte entre os dois mundos

Se há ideia que precisa de ficar absolutamente clara é esta:

Os dados não servem para medir o futebol.

Servem para medir o futebol que esta equipa quer jogar.

E é aqui que começa a integração real entre análise tática e análise de dados.

A maior falha que vemos nos clubes não está na falta de números, mas sim no facto de as métricas nascerem do software e não do jogo.

Mede-se o que está na plataforma… e não o que realmente importa para a equipa.

Mas cada ideia de jogo exige métricas diferentes:

➡️ há modelos de jogo que vivem da largura e outros da densidade interior

➡️ há equipas que pressionam para recuperar e outras que pressionam para atrasar

➡️ há quem ataque por atração e quem ataque por aceleração

➡️ há quem defenda espaço e quem defenda referências

E cada identidade exige métricas diferentes.

A ordem correta não começa nos dados. Começa no jogo.

1️⃣ A análise tática define o comportamento desejado

O vídeo revela o que a equipa quer fazer, onde cria, onde sofre, que princípios a guiam.

2️⃣ Esses comportamentos transformam-se em métricas

"Se este é o comportamento que queremos como é que o podemos medir de forma objetiva"

3️⃣ Os dados testam consistência, recorrência e impacto

Os números entram para responder:

Isto acontece com consistência? Em que zonas aparece? Em que momentos falha? Qual é a tendência ao longo do tempo?

4️⃣ O vídeo volta para contextualizar

Os dados dizem quando falhou.

Mas só o vídeo explica porquê.

🔁 O ciclo completo da decisão

Vídeo → Levanta hipótese

“Somos vulneráveis entre linhas quando o médio se atrasa na pressão.”

Dados → Validam ou rejeitam

“De facto, 63% das receções do adversário entre linhas surgem após atraso do médio.”

Vídeo → Explica o mecanismo

“O problema não é a reação é a distância inicial no momento da pressão.”

Treino → Ajusta o comportamento

“Ajustamos a distância na fase inicial da pressão.”

Este ciclo é o que cria decisões consistentes.

⚙️ Ideia-chave

Não existem métricas universais. Existem métricas coerentes com o modelo de jogo.

O que isto muda para o analista e para o futuro da profissão

Integrar vídeo e dados já não é “uma mais-valia”.

É uma exigência do jogo moderno.

O analista que fica apenas num dos lados torna-se um especialista incompleto.

E o mercado já percebeu isso.

As equipas vão procurar quem:

➡️ contextualiza números com lógica de jogo

➡️ transforma tendências em decisões

➡️ usa dados para ganhar precisão e vídeo para ganhar sentido

➡️ filtra ruído

➡️ liga o mundo técnico ao estatístico

➡️ transforma informação em plano de ação

Os clubes não querem o “gajo dos cortes” separado do “gajo dos números”.

Querem um profissional capaz de falar as duas linguagens.

Esse é o analista que vai liderar o futuro.

Pergunta para reflexão

Quando trabalhas um jogo, começas pelo vídeo ou pelos dados? E porquê?

Responde a este email, quero conhecer a tua perspetiva.

Nós ficamos por aqui, mas vemos-nos terça-feira, no próximo Bloco de Notas OS.

PS: Trabalho individualmente com analistas e treinadores que querem ganhar clareza no jogo, no método e no modelo. Sessões focadas em leitura tática, organização do processo e ligação entre análise, treino e decisão. Sessão 1:1 - Saber mais

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