Nota #15 - Ninguém te vai descobrir se não fores visível

O futebol é um meio pequeno.

Toda a gente se conhece e, ainda assim, poucos são realmente vistos.

Há analistas com conhecimento, com método, com paixão.

Que estudam, investem, melhoram e mesmo assim, não chegam lá.

Não porque lhes falte competência, mas porque ninguém os reconhece como uma peça necessária do jogo.

É fácil sentir frustração.

Sentir que o problema é o mercado, as ligações, a sorte.

E, em parte, é verdade.

O futebol é um jogo de relações, dentro e fora de campo.

Mas também é verdade que estar preparado não é o mesmo que estar pronto.

Estar preparado é dominar o conteúdo.

Estar pronto é saber transformar esse conteúdo em valor visível.

Muitos analistas vivem nesta fronteira invisível: sabem o que valem, mas mais ninguém sabe.

E quando isso acontece, o mérito deixa de ser uma vantagem e torna-se um segredo bem guardado.

A questão não é se tens qualidade.

É se alguém pode ver, entender e acreditar nela.

O talento pode abrir portas mas só se alguém souber que existes.

A partir daqui, o desafio deixa de ser apenas melhorar o que sabes e passa por saber mostrar o que representas.

A confusão entre visibilidade e vaidade

No futebol, há um estigma antigo e até mesmo, retrógrado: quem mostra o que faz, “quer protagonismo”.

Quem fala de si, “quer aparecer”.

E por isso, muitos bons profissionais escondem-se atrás da ideia de humildade e acabam invisíveis.

Mas mostrar o teu trabalho não é vaidade.

É posicionamento.

A diferença está na intenção.

A auto-promoção é centrada no ego, quer atenção.

O posicionamento é centrado no valor, quer reconhecimento.

A primeira diz “olhem para mim”.

A segunda diz “olhem para o que posso oferecer.”

O futebol ainda continua a funcionar muito por perceção e Isto torna-se ainda mais importante porque ninguém é contratado pelo que sabe, é contratado pelo que demonstra saber fazer.

E se o teu trabalho nunca é visto, nunca entra no radar de quem decide.

Claro que há limites.

Expor o trabalho interno do clube, publicar relatórios, vídeos táticos ou informação sensível não faz sentido e compromete a confiança.

Mas isso não é o mesmo que mostrar as tuas capacidades, a tua forma de pensar o jogo, o teu processo, as tuas ideias.

Mostrar o teu raciocínio não é trair o clube.

É construir a tua identidade como profissional.

Ter uma marca pessoal não é marketing vazio.

É gestão de perceção e consistência.

É o que faz com que, quando alguém ouve o teu nome, tenha uma imagem clara do que representas.

"A tua marca pessoal é o som que o teu nome faz quando não estás na sala."

E no futebol, essa sala é o mercado.

Se o teu nome não ecoa, alguém com menos competência mas mais presença vai ocupar o espaço que podia ser teu.

⚙️ Ideia-chave:

Mostrar o teu trabalho não é falta de humildade é a forma mais honesta de dizer ao mercado: “é isto que sei fazer e é assim que posso contribuir.”

O que é a marca pessoal no contexto do analista que quer crescer

Se ainda não estás onde gostavas de estar, a marca pessoal é a ferramenta que te permite mostrar o teu valor antes da oportunidade aparecer.

No futebol, o conhecimento não basta é preciso ser reconhecido pelo teu raciocínio.

A marca pessoal é exatamente isso: a perceção que o mercado constrói sobre a tua forma de pensar o jogo.

É o que o teu trabalho comunica mesmo quando não estás a falar.

Construí-la não tem nada a ver com exposição.

Tem a ver com organização de pensamento, clareza e consistência.

Não se trata de dizer “sou bom”, mas de mostrar como vês o jogo, o que observas, e o que valorizas numa equipa.

Esse conjunto de ideias cria uma impressão e essa impressão é o que o mercado chama “credibilidade”.

Partilhar o teu raciocínio é a forma mais direta de te tornares visível sem te promoveres.

Não é mostrar resultados de jogos ou relatórios, é partilhar a forma como pensas, o processo por trás da leitura.

"Não mostres o resultado. Mostra o processo."

Mostra o que te faz pensar, como relacionas conceitos, o que retiras de um jogo.

É assim que começas a criar uma identidade de leitura, algo que te distingue e te coloca no radar.

No fundo, a marca pessoal não é sobre “divulgar-te”.

É sobre tornar o teu pensamento rastreável.

⚙️ Ideia-chave:

A marca pessoal é o espelho do teu raciocínio. Quanto mais claro for o teu processo, mais fácil será alguém confiar no teu trabalho mesmo antes de te conhecer.

Como começar…

Quando decides tornar-te visível, prepara-te: vais ser alvo de críticas, olhares desconfiados e julgamentos de quem ainda confunde exposição com vaidade.

Mas há algo que precisas de perceber antes de tudo: tu já tens uma marca pessoal.

Cada pessoa com quem trabalhas, cada reunião, cada mensagem, cada projeto, tudo o que fazes já comunica algo sobre ti.

A diferença está no que decides fazer com isso.

Podes deixar que essa perceção aconteça por acaso… ou podes ser tu a definir o que ela representa.

"Se vão falar de qualquer maneira, dá-lhes um bom motivo para o fazer."

Ser visível não é ser arrogante.

É assumir o controlo sobre a forma como o teu trabalho é percecionado.

No início, vão criticar, sobretudo os que não fazem nada.

Mas a verdade é simples: não há mérito que resista à invisibilidade, e não há presença que dure sem conteúdo.

A seguir, cinco princípios simples para começares a construir a tua presença com coerência e propósito.

1️⃣ Define o teu foco

Antes de partilhares o que fazes, entende o que representas.

Que tipo de analista queres ser? Que temas dominas? Que perguntas guiam o teu olhar sobre o jogo?

Quando tens clareza sobre o teu foco, tudo o resto se organiza:

a forma como escreves, o que partilhas e até o tipo de oportunidades que atrais.

A visibilidade sem foco é só ruído.

2️⃣ Mostra o processo, não o resultado

Publicar não é mostrar resultados nem tentar impressionar.

É partilhar o raciocínio, o que viste, como chegaste a uma conclusão, o que aprendeste com isso.

Faz o leitor perceber que por trás de cada corte, gráfico ou relatório, há um pensamento estruturado.

Isso cria credibilidade, e a credibilidade constrói-se com clareza, não com espetáculo.

3️⃣ Cria consistência e identidade

Mais do que frequência, o que gera reconhecimento é coerência.

Usa o mesmo tom, o mesmo rigor e a mesma forma de apresentar as tuas ideias.

Com o tempo, as pessoas começam a identificar o teu estilo antes mesmo de ler o nome.

Essa é a tua assinatura analítica, o que te distingue de todos os outros.

4️⃣ Constrói relações, não apenas público

O futebol é um meio de pessoas, não de perfis.

Comenta, partilha, troca ideias, elogia o trabalho de outros analistas.

O networking real nasce da troca genuína, quando ofereces valor antes de pedires algo em troca.

Uma boa reputação não se impõe, circula.

E circula mais depressa quando és lembrado como alguém que acrescenta.

5️⃣ Cria o teu portefólio

Mesmo que ainda não estejas num clube, podes ter provas do teu trabalho.

Reúne análises, relatórios, apresentações ou projetos pessoais.

Mostra que tens método, critério e progressão.

Esse portefólio é o teu campo de treino, o espaço onde o teu desenvolvimento pode ser visto e avaliado.

Quando uma oportunidade surgir, o teu trabalho já falará por ti.

⚙️ Ideia-chave:

A visibilidade não é o destino. É o meio que transforma competência em oportunidade.

Ser bom já não chega

No futebol, o mérito técnico é o ponto de partida não o ponto de chegada.

Há quem diga que o trabalho fala por si.

Mas se ninguém o ouve, ele fala para o vazio.

Queres ser reconhecido, mas não mostras o que fazes.

Queres oportunidades, mas tens medo de ser visto.

Acreditar que basta ser bom é uma vaidade disfarçada de humildade.

O talento invisível é irrelevante.

Mostrar o teu trabalho não é ego.

É respeito pelo esforço que fizeste para o construir.

Ser bom é o início. Ser lembrado é o resultado.

Pensa nisto: se alguém pesquisar o teu nome hoje, o que descobre sobre o teu trabalho?

O teu valor pode estar lá.

Mas só se o deixares ser visto.

Nós ficamos por aqui, mas vemos-nos na próxima terça-feira, no próximo Bloco de Notas.

PS: Trabalho individualmente com analistas e treinadores que querem ganhar clareza no jogo, no método e no modelo. Sessões focadas em leitura tática, organização do processo e ligação entre análise, treino e decisão. Sessão 1:1 - Saber mais

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