O futebol é um meio pequeno.
Toda a gente se conhece e, ainda assim, poucos são realmente vistos.
Há analistas com conhecimento, com método, com paixão.
Que estudam, investem, melhoram e mesmo assim, não chegam lá.
Não porque lhes falte competência, mas porque ninguém os reconhece como uma peça necessária do jogo.
É fácil sentir frustração.
Sentir que o problema é o mercado, as ligações, a sorte.
E, em parte, é verdade.
O futebol é um jogo de relações, dentro e fora de campo.
Mas também é verdade que estar preparado não é o mesmo que estar pronto.
Estar preparado é dominar o conteúdo.
Estar pronto é saber transformar esse conteúdo em valor visível.
Muitos analistas vivem nesta fronteira invisível: sabem o que valem, mas mais ninguém sabe.
E quando isso acontece, o mérito deixa de ser uma vantagem e torna-se um segredo bem guardado.
A questão não é se tens qualidade.
É se alguém pode ver, entender e acreditar nela.
O talento pode abrir portas mas só se alguém souber que existes.
A partir daqui, o desafio deixa de ser apenas melhorar o que sabes e passa por saber mostrar o que representas.
A confusão entre visibilidade e vaidade
No futebol, há um estigma antigo e até mesmo, retrógrado: quem mostra o que faz, “quer protagonismo”.
Quem fala de si, “quer aparecer”.
E por isso, muitos bons profissionais escondem-se atrás da ideia de humildade e acabam invisíveis.
Mas mostrar o teu trabalho não é vaidade.
É posicionamento.
A diferença está na intenção.
A auto-promoção é centrada no ego, quer atenção.
O posicionamento é centrado no valor, quer reconhecimento.
A primeira diz “olhem para mim”.
A segunda diz “olhem para o que posso oferecer.”
O futebol ainda continua a funcionar muito por perceção e Isto torna-se ainda mais importante porque ninguém é contratado pelo que sabe, é contratado pelo que demonstra saber fazer.
E se o teu trabalho nunca é visto, nunca entra no radar de quem decide.
Claro que há limites.
Expor o trabalho interno do clube, publicar relatórios, vídeos táticos ou informação sensível não faz sentido e compromete a confiança.
Mas isso não é o mesmo que mostrar as tuas capacidades, a tua forma de pensar o jogo, o teu processo, as tuas ideias.
Mostrar o teu raciocínio não é trair o clube.
É construir a tua identidade como profissional.
Ter uma marca pessoal não é marketing vazio.
É gestão de perceção e consistência.
É o que faz com que, quando alguém ouve o teu nome, tenha uma imagem clara do que representas.
"A tua marca pessoal é o som que o teu nome faz quando não estás na sala."
E no futebol, essa sala é o mercado.
Se o teu nome não ecoa, alguém com menos competência mas mais presença vai ocupar o espaço que podia ser teu.
⚙️ Ideia-chave:
Mostrar o teu trabalho não é falta de humildade é a forma mais honesta de dizer ao mercado: “é isto que sei fazer e é assim que posso contribuir.”
O que é a marca pessoal no contexto do analista que quer crescer
Se ainda não estás onde gostavas de estar, a marca pessoal é a ferramenta que te permite mostrar o teu valor antes da oportunidade aparecer.
No futebol, o conhecimento não basta é preciso ser reconhecido pelo teu raciocínio.
A marca pessoal é exatamente isso: a perceção que o mercado constrói sobre a tua forma de pensar o jogo.
É o que o teu trabalho comunica mesmo quando não estás a falar.
Construí-la não tem nada a ver com exposição.
Tem a ver com organização de pensamento, clareza e consistência.
Não se trata de dizer “sou bom”, mas de mostrar como vês o jogo, o que observas, e o que valorizas numa equipa.
Esse conjunto de ideias cria uma impressão e essa impressão é o que o mercado chama “credibilidade”.
Partilhar o teu raciocínio é a forma mais direta de te tornares visível sem te promoveres.
Não é mostrar resultados de jogos ou relatórios, é partilhar a forma como pensas, o processo por trás da leitura.
"Não mostres o resultado. Mostra o processo."
Mostra o que te faz pensar, como relacionas conceitos, o que retiras de um jogo.
É assim que começas a criar uma identidade de leitura, algo que te distingue e te coloca no radar.
No fundo, a marca pessoal não é sobre “divulgar-te”.
É sobre tornar o teu pensamento rastreável.
⚙️ Ideia-chave:
A marca pessoal é o espelho do teu raciocínio. Quanto mais claro for o teu processo, mais fácil será alguém confiar no teu trabalho mesmo antes de te conhecer.
Como começar…
Quando decides tornar-te visível, prepara-te: vais ser alvo de críticas, olhares desconfiados e julgamentos de quem ainda confunde exposição com vaidade.
Mas há algo que precisas de perceber antes de tudo: tu já tens uma marca pessoal.
Cada pessoa com quem trabalhas, cada reunião, cada mensagem, cada projeto, tudo o que fazes já comunica algo sobre ti.
A diferença está no que decides fazer com isso.
Podes deixar que essa perceção aconteça por acaso… ou podes ser tu a definir o que ela representa.
"Se vão falar de qualquer maneira, dá-lhes um bom motivo para o fazer."
Ser visível não é ser arrogante.
É assumir o controlo sobre a forma como o teu trabalho é percecionado.
No início, vão criticar, sobretudo os que não fazem nada.
Mas a verdade é simples: não há mérito que resista à invisibilidade, e não há presença que dure sem conteúdo.
A seguir, cinco princípios simples para começares a construir a tua presença com coerência e propósito.
1️⃣ Define o teu foco
Antes de partilhares o que fazes, entende o que representas.
Que tipo de analista queres ser? Que temas dominas? Que perguntas guiam o teu olhar sobre o jogo?
Quando tens clareza sobre o teu foco, tudo o resto se organiza:
a forma como escreves, o que partilhas e até o tipo de oportunidades que atrais.
A visibilidade sem foco é só ruído.
2️⃣ Mostra o processo, não o resultado
Publicar não é mostrar resultados nem tentar impressionar.
É partilhar o raciocínio, o que viste, como chegaste a uma conclusão, o que aprendeste com isso.
Faz o leitor perceber que por trás de cada corte, gráfico ou relatório, há um pensamento estruturado.
Isso cria credibilidade, e a credibilidade constrói-se com clareza, não com espetáculo.
3️⃣ Cria consistência e identidade
Mais do que frequência, o que gera reconhecimento é coerência.
Usa o mesmo tom, o mesmo rigor e a mesma forma de apresentar as tuas ideias.
Com o tempo, as pessoas começam a identificar o teu estilo antes mesmo de ler o nome.
Essa é a tua assinatura analítica, o que te distingue de todos os outros.
4️⃣ Constrói relações, não apenas público
O futebol é um meio de pessoas, não de perfis.
Comenta, partilha, troca ideias, elogia o trabalho de outros analistas.
O networking real nasce da troca genuína, quando ofereces valor antes de pedires algo em troca.
Uma boa reputação não se impõe, circula.
E circula mais depressa quando és lembrado como alguém que acrescenta.
5️⃣ Cria o teu portefólio
Mesmo que ainda não estejas num clube, podes ter provas do teu trabalho.
Reúne análises, relatórios, apresentações ou projetos pessoais.
Mostra que tens método, critério e progressão.
Esse portefólio é o teu campo de treino, o espaço onde o teu desenvolvimento pode ser visto e avaliado.
Quando uma oportunidade surgir, o teu trabalho já falará por ti.
⚙️ Ideia-chave:
A visibilidade não é o destino. É o meio que transforma competência em oportunidade.
Ser bom já não chega
No futebol, o mérito técnico é o ponto de partida não o ponto de chegada.
Há quem diga que o trabalho fala por si.
Mas se ninguém o ouve, ele fala para o vazio.
Queres ser reconhecido, mas não mostras o que fazes.
Queres oportunidades, mas tens medo de ser visto.
Acreditar que basta ser bom é uma vaidade disfarçada de humildade.
O talento invisível é irrelevante.
Mostrar o teu trabalho não é ego.
É respeito pelo esforço que fizeste para o construir.
Ser bom é o início. Ser lembrado é o resultado.
Pensa nisto: se alguém pesquisar o teu nome hoje, o que descobre sobre o teu trabalho?
O teu valor pode estar lá.
Mas só se o deixares ser visto.
Nós ficamos por aqui, mas vemos-nos na próxima terça-feira, no próximo Bloco de Notas.