Nos últimos meses tenho recebido dezenas de mensagens de analistas que estão a dar os primeiros passos.
Muitos pedem conselhos, outros enviam relatórios para feedback, alguns apenas procuram uma direção.
São dúvidas diferentes, vindas de contextos distintos, mas que acabam quase sempre por revelar o mesmo problema: falta de estrutura, falta de critério e uma sensação constante de desorganização.
Ao analisar esses trabalhos, percebi que o erro raramente está na intenção.
A maioria destes analistas tem vontade, estuda, vê jogos, dedica tempo.
Mas o esforço está a ser aplicado no sítio errado.
Focam-se em acumular ferramentas e software, em aprender atalhos técnicos, quando o verdadeiro ponto de partida é outro: construir um método de pensar e organizar o jogo.
Foi essa repetição que me fez parar para observar o padrão.
Há uma série de erros que se repetem, não por falta de conhecimento, mas porque ninguém ensina o processo que liga a observação à decisão.
E é nesse espaço, entre o olhar e a ação, que muitos se perdem.
Esta edição nasce precisamente dessa constatação.
É uma síntese dos erros mais comuns que tenho identificado nos analistas em início de carreira e de tudo o que esses erros revelam sobre a forma como se pensa (ou não se pensa) o jogo.
Não é uma lista de dicas rápidas.
É um convite à reflexão sobre o teu processo: como observas, como organizas, como decides o que é realmente importante.
Porque o futebol é complexo.
Mas a função do analista é dar-lhe clareza, lógica e intenção.
Erro 1 – Trabalhar sem processo: o analista desorganizado
Há analistas que trabalham tanto que acabam por não evoluir.
Cortam jogos, fazem relatórios, preenchem grelhas.
Estão sempre ocupados, mas raramente sabem o que procuram.
No fim, têm gigabytes de informação e muito pouco conhecimento.
Já observei este padrão em quase todos os analistas que acompanhei: a vontade de mostrar competência transforma-se em excesso de produção.
Demasiados cortes, demasiados relatórios, demasiadas horas de observação sem direção.
É uma reação natural de quem está a começar, querer provar que pertence ao jogo.
Mas essa pressa cria o erro mais silencioso de todos: a ausência de método.
Um analista sem processo vive em modo reativo: observa, corta, escreve, apaga e recomeça, sem nunca perceber exatamente o que está a procurar.
Trabalha muito, mas não evolui.
Entrega relatórios, mas não sabe repetir o que fez bem, nem identificar onde errou.
Na origem está a confusão entre trabalho e progresso.
O esforço constante dá a ilusão de evolução, mas sem uma estrutura que organize o olhar, a aprendizagem dissolve-se.
O processo é o que liga o tempo investido à qualidade da decisão.
É aquilo que transforma horas de observação em conhecimento útil e replicável.
Quando o analista tem processo, o trabalho ganha previsibilidade.
Sabe o que observa primeiro, o que compara, o que descarta.
Não perde tempo com o acessório porque o essencial já está definido.
O processo torna-se o seu modelo de jogo: princípios, rotinas, correções.
Tal como uma equipa precisa de regras que orientem decisões dentro de campo, o analista precisa de um conjunto de princípios que orientem o seu olhar.
Sem esses princípios, o trabalho é apenas reação.
Evitar este erro não passa por aprender mais softwares nem por copiar a rotina de outro analista.
Passa por desenhar o teu próprio método, adaptado ao contexto, mas guiado por intenções claras.
Antes de abrires o vídeo, formula um pensamento.
Define a ideia central que queres compreender, aquilo que precisa de resposta no final.
Se o teu relatório final não responder a esse pensamento, o processo ainda não está claro.
E revê o teu trabalho com a mesma exigência com que revês uma equipa:
onde estiveste bem, onde desperdiçaste tempo, o que podes ajustar na próxima semana.
A constância nasce desse olhar crítico.
Um analista com processo é previsível na entrega, mas criativo na leitura.
E é isso que separa quem observa de quem interpreta.
"Saber observar é técnico. Entregar valor é processual."
Erro 2 — Querer ver tudo (e acabar por não ver nada)
Depois há analistas que começam um jogo com o olhar em todo o lado.
Tentam seguir a bola, as linhas, as pressões, o posicionamento da defesa e o comportamento do treinador.
No fim, não sabem o que viram.
É um dos erros mais frequentes em quem está a começar: tentar ver tudo.
O analista entra no jogo sem foco, como se cada detalhe tivesse o mesmo peso, como se a profundidade da análise dependesse da quantidade de coisas observadas.
Mas quanto mais tenta ver, menos realmente entende.
Este erro nasce da ansiedade de provar competência.
O analista iniciante confunde amplitude com profundidade.
Amplitude é ver tudo o que acontece.
Profundidade é perceber o que importa.
E as duas raramente coexistem no mesmo olhar.
Acredita que precisa de captar tudo para não falhar nada.
Mas o olhar do analista não é o olhar do espectador.
Sem intenção, o olhar é disperso, vê muito, mas não sabe o que procura.
O analista não está no jogo para se maravilhar com o que acontece; está para compreender por que acontece.
Essa diferença é a mesma que existe entre ver um exercício e entender o objetivo tático por trás dele.
No futebol, observar é um exercício de exclusão.
Escolher o que não vais ver é tão importante como definir o que procuras.
Um olhar maduro é seletivo: elimina o ruído para conseguir ver a estrutura.
Sabe que cada jogo é demasiado complexo para ser compreendido de uma só vez.
Por isso divide, foca e interpreta.
A consequência deste erro é dupla: falta de critério e perda de tempo.
O analista disperso acumula clips e anotações que nunca mais revê.
O relatório torna-se pesado, redundante, cheio de informação que não leva a nenhuma decisão.
E quando o treinador pergunta “Mas o que é que isto significa para nós?”, ele hesita, porque não sabe.
Não sabe porque nunca procurou responder a uma pergunta concreta.
Evitar este erro exige um exercício simples, mas exigente: intencionalidade.
Cada jogo deve começar com uma direção clara.
Não precisas de ver tudo; precisas de ver o que te ajuda a compreender a tua ideia.
Antes de observar, define o foco.
A partir daí, tudo o resto é ruído.
O olhar do analista amadurece quando aprende a recusar.
Recusar o excesso, o impulso de preencher, a necessidade de estar em todo o lado.
A clareza nasce da escolha.
Escolher é o ato mais difícil , e mais profissional, na análise.
"A profundidade nasce da restrição do olhar."
Erro 3 — Falhar na síntese: selecionar mal, organizar pior
Há uma fase em que o analista já observa com intenção, mas ainda não comunica com clareza.
Vê o jogo com foco, reconhece padrões, corta os momentos certos.
Mas quando chega a hora de transformar o que recolheu num relatório, perde-se.
Os vídeos multiplicam-se, as imagens repetem-se, a mensagem dilui-se.
O resultado é um vídeo cheio de ações e pobre em intenção.
Este erro não é técnico, é estrutural.
O analista acredita que está a ser completo quando, na verdade, está apenas a ser redundante.
A confusão nasce da ideia de que quanto mais se mostra, mais valor se entrega.
Mas o relatório não é um espelho do jogo é uma narrativa sobre o jogo.
E toda a narrativa precisa de direção.
O erro repete-se porque muitos analistas escolhem os clips certos, mas falham em organizá-los.
Ficam presos em momentos isolados, sem sequência nem lógica.
O relatório torna-se uma coleção de ações, não uma linha de pensamento.
O treinador vê o vídeo, mas não percebe a história.
E se não há história, não há decisão.
A boa análise vive da síntese: a capacidade de condensar o complexo sem o distorcer.
Selecionar é decidir o que representa o todo, não o que o enche.
E organizar é ligar cada imagem à anterior, para que o relatório flua como o jogo, com ritmo, coerência e intenção.
Um bom relatório tem uma tese, não um arquivo.
Tem um início, um desenvolvimento e uma conclusão.
Não precisa de mostrar tudo o que o analista viu, apenas o que sustenta a sua ideia.
Evitar este erro exige disciplina intelectual.
Antes de começar a montar o video, define o que queres demonstrar.
Cada clip deve existir para provar um ponto e preparar o próximo.
Tudo o resto é ruído.
Quando a sequência está certa, o treinador não precisa que expliques, ele percebe.
E quando o treinador percebe sem que tenhas de dizer uma palavra, a análise cumpriu o seu papel.
O relatório é o momento em que a observação se transforma em decisão.
E só cumpre essa função quando conta uma história clara, onde cada imagem explica o porquê do que acontece.
"Um bom relatório é uma história, não uma coleção de imagens."
Erro 4 — Comunicar para impressionar, não para decidir
Há um momento em que o analista deixa de errar por falta de conhecimento e começa a errar por vaidade.
Já domina as ferramentas, sabe o que procura, reconhece padrões com facilidade.
Mas quando chega a hora de comunicar, troca clareza por espetáculo.
Apresenta relatórios longos, vídeos cheios de efeitos, frases técnicas que soam a linguagem fechada.
Quer mostrar que sabe quando o seu trabalho é ajudar quem decide.
Este é o erro mais difícil de reconhecer, porque nasce de uma intenção positiva: mostrar valor.
O problema é que, quando o foco é impressionar, a mensagem perde força.
A análise deixa de servir a decisão e passa a servir o ego.
E o treinador, que vive sob a pressão do tempo e do resultado, deixa de ouvir.
Não porque não respeite o analista, mas porque não tem espaço mental para decifrar o que ele quis dizer.
A função do analista é simplificar o complexo, não ampliá-lo.
O seu papel é traduzir o jogo, não descrevê-lo.
E traduzir implica adaptar a linguagem ao destinatário.
O treinador não precisa de saber o nome do princípio tático, precisa de entender como esse princípio se manifesta na equipa.
O jogador não precisa de um parágrafo, precisa de uma imagem que o faça perceber.
Comunicar é compreender o outro lado da mensagem.
Muitos analistas confundem rigor com complicação.
Acham que falar simples é banalizar o conteúdo, quando na verdade é elevá-lo.
A clareza não diminui o conhecimento, revela-o.
Ser capaz de condensar uma ideia tática numa frase curta ou num clip certeiro é o sinal de que se domina o assunto.
Quem complica, ainda não entendeu o suficiente.
Evitar este erro exige humildade e intenção.
Antes de apresentar qualquer relatório, pergunta-te: o que quero que o treinador decida depois de ver isto?
Se não souberes responder em dez segundos, a tua mensagem ainda não está pronta.
A comunicação eficaz é aquela que orienta a ação, não a que a enfeita.
Um bom analista não procura ser lembrado pelo que disse, mas pelo impacto do que ajudou a decidir.
A autoridade não vem do volume de palavras, vem da precisão das ideias.
"O relatório não serve para mostrar o que sabes. Serve para ajudar o treinador a agir."
Erro 5 — Analisar o que acontece, não o que se repete
O olhar do analista amadurece quando deixa de se fixar na ação isolada e começa a procurar o padrão.
Mas no início, quase todos se perdem no detalhe.
Param o vídeo, voltam atrás, revêm a mesma jogada dez vezes, como se a verdade estivesse naquele episódio específico.
O problema é que o jogo não vive em episódios.
Vive em regularidades, em repetições que revelam princípios e intenções.
O analista iniciante tende a confundir o excecional com o essencial.
Entra no jogo à procura de lances que chamem a atenção, e não percebe que a verdadeira informação está no que se repete silenciosamente.
Um passe entre linhas pode parecer brilhante, mas só tem valor analítico se fizer parte de um comportamento constante.
Sem repetição, não há padrão; e sem padrão, não há leitura tática.
Este erro tem uma origem simples: a vontade de encontrar conclusões rápidas.
O analista quer explicar o jogo antes de o compreender.
Olha para uma jogada e apressa-se a dar-lhe significado.
Mas a análise não é um exercício de pressa, é um exercício de paciência.
Exige observar o suficiente para perceber o que é tendência e o que é acaso.
E o acaso, no futebol, acontece muito mais vezes do que parece.
Analisar o que acontece é descrever.
Analisar o que se repete é interpretar.
E a diferença entre uma coisa e outra é o que define maturidade.
Quando o analista reconhece padrões, começa a ver o jogo como um sistema, cada ação ligada a uma intenção, cada intenção ligada a um princípio.
Deixa de ver fragmentos e começa a ver estruturas.
Deixa de reagir ao episódio e passa a antecipar o comportamento.
Evitar este erro implica mudar a forma como se olha o jogo.
Em vez de perguntar “o que aconteceu?”, pergunta “porque aconteceu?” e “com que frequência?”.
A repetição dá contexto; o contexto dá sentido.
É o padrão que valida a leitura e sustenta a decisão.
O analista maduro não procura o lance que impressiona.
Procura o comportamento que se mantém.
E é nessa constância que o jogo se revela — não na ação que brilha, mas no padrão que se repete.
"O analista maduro não procura lances. Procura comportamentos que se repetem."
Entre o olhar e o processo
A maior diferença entre um analista iniciante e um analista profissional não está na ferramenta que usa, nem na complexidade do seu relatório.
Está na forma como pensa o jogo e organiza o seu próprio trabalho.
Os erros que vimos, falta de processo, olhar disperso, incapacidade de síntese, comunicação confusa e ausência de leitura de padrões, são apenas manifestações diferentes do mesmo problema: trabalhar sem intenção.
O jogo é demasiado denso para ser compreendido por quem apenas observa.
É preciso organizar o olhar, filtrar o que é ruído, traduzir o que é relevante e entregar de forma que influencie a decisão.
E isso só se consegue com método.
O método é a estrutura invisível que sustenta o pensamento do analista, o que transforma observação em leitura, leitura em comunicação e comunicação em valor para a equipa.
Um analista maduro não quer mostrar o quanto sabe.
Quer que a sua análise melhore o comportamento de quem joga.
Quer que o treinador tome decisões mais informadas, que a equipa perceba mais depressa, que o tempo investido em cada jogo tenha retorno real no rendimento.
É isso que separa o observador do intérprete.
E é também o que distingue o profissional do amador.
Evitar estes erros não é um exercício de correção pontual é um compromisso com o processo.
Significa trabalhar com intenção todos os dias, criar rotinas, rever o próprio trabalho e aceitar que a clareza é sempre o destino, nunca o ponto de partida.
O analista cresce quando o seu olhar ganha método.
E é nesse ponto que o jogo começa, finalmente, a fazer sentido.
Se sentes que alguns destes erros ainda fazem parte do teu processo, responde a este email.
Posso ajudar-te a rever o teu trabalho e a definir o método que te vai permitir evitá-los.
Um processo sólido é o primeiro passo para começares a pensar o jogo de forma profissional.