Hoje, já ninguém quer ler relatórios de 20 páginas.
No futebol atual, em que o tempo é escasso, a informação tem de ser direta, clara e visual. A análise vive em vídeo, não em papel. O relatório escrito só faz sentido quando não é possível recorrer ao vídeo, caso contrário, perde impacto.
Daí a importância de o analista dominar ferramentas de análise e de edição. Não basta observar: é preciso transformar observações em imagens claras, sequências editadas e mensagens que transmitam, em instantes, aquilo que demoraria páginas a explicar por texto.
Este método aplica-se tanto à análise da nossa equipa como à análise de adversário. A lógica é simples: transformar observação em interpretação, e interpretação em entrega.
Mais do que isso, é um guia pensado para dar suporte a analistas, sobretudo em início de carreira, ajudando-os a estruturar o pensamento e a organizar o trabalho.
No fim, um relatório em vídeo tem de ser mais do que uma lista de clipes: tem de ser uma ferramenta real de decisão.
É por isso que sigo o método OIE: Observar, Interpretar, Entregar, uma forma simples e prática de garantir que a análise impacta o que realmente importa: o jogo.
Parte 1 — Observar
Observar não é o mesmo que ver.
Ver é registar acontecimentos, observar é selecionar com critério o que importa para explicar o jogo.
Implica intenção, saber à partida o que procurar e contexto, porque uma ação isolada pouco diz se não for enquadrada nas dinâmicas coletivas em que acontece.
Esta é a primeira diferença entre um relatório banal e um relatório que acrescenta valor: separar o essencial do acessório.
Importa também distinguir dois focos: a nossa equipa e o adversário.
Na análise interna, o ponto de partida é quase sempre o último jogo (ou um conjunto curto dos mais recentes). O objetivo é verificar se os princípios do modelo estão a aparecer, identificar padrões consistentes (positivos e negativos) e recolher informação que permita definir prioridades do microciclo. É a partir desta observação que se decide o que treinar já.
A análise do adversário é diferente. Não se trata de ver “todos os jogos”, mas de escolher os mais relevantes. A lógica não é quantidade, é pertinência: jogos contra equipas que defendem ou atacam de forma semelhante à nossa, contextos táticos próximos, momentos em que o adversário foi colocado sob o stress que também procuraremos induzir. Escolher bem é meio caminho andado para uma análise com impacto.
No fundo, esta etapa é recolha com filtro. Nem tudo o que aparece num jogo é relevante para explicar tendências ou preparar um plano. O desafio do analista é reconhecer padrões que se repetem, perceber em que condições surgem e decidir o que vale a pena levar para a fase seguinte.
É esse filtro que transforma horas de vídeo em pontos claros de observação pontos que podem, mais tarde, mudar treino, preparação e jogo.
Parte 2 — Interpretar
Observar é recolher informação, interpretar é dar-lhe sentido.
E dar sentido não é apenas explicar o que aconteceu, mas também organizar a informação de acordo com a forma como a equipa técnica prefere olhar para o jogo. Cada treinador tem a sua leitura, e essa visão deve orientar a construção do relatório.
A estrutura mais comum e intuitiva nasce da lógica interna do jogo: momentos (organização ofensiva e defensiva, transições, bolas paradas) e, dentro de cada momento, a progressão espacial do que acontece junto da nossa baliza até ao que se passa perto da baliza adversária.
A partir daqui, o analista organiza os clipes para criar uma narrativa coerente. O objetivo não é mostrar tudo, é transformar ações isoladas em padrões, revelando princípios e comportamentos coletivos, setoriais e individuais que traduzem a ideia de jogo do adversário ou, no caso da nossa equipa, confirmam a aplicação do modelo.
Interpretar é um exercício de decisão e síntese: decidir o que importa mostrar, retirar ruído, ligar acontecimentos e revelar o que não é óbvio a quem olha apenas para a jogada isolada.
Se antes falávamos de selecionar o que observar, aqui falamos de explicar por que acontece, o que significa e como se relaciona com o todo. É nesta ponte que nasce o valor do relatório.
Parte 3 — Entregar
A melhor observação e a interpretação mais clara perdem impacto se não forem bem entregues. O relatório não é só conteúdo; é também produto final e esse produto é, quase sempre, o vídeo.
É no vídeo que a narrativa ganha forma. Toda a lógica que estruturámos — selecionar, organizar, interpretar — tem de ser coerente quando chega ao destinatário. Se a construção é clara, mas a entrega é confusa, o trabalho perde valor.
Clareza e propósito. Cada imagem escolhida deve ter um objetivo. Não se trata de acumular lances, mas de selecionar os que reforçam uma mensagem concreta: um padrão, uma fragilidade, uma oportunidade a explorar.
A edição deve servir a clareza. Anotações/sobreposições gráficas (telestration) — setas, zonas, destaques — enriquecem o clipe até ao ponto em que ajudam a ver melhor; excesso vira ruído.
Destinatário certo.
➡️ Treinadores: visão global, padrões coletivos, comportamentos por setores, lógica estrutural. O vídeo deve sustentar decisões estratégicas e a planificação do treino.
➡️ Jogadores: feedback direto e curto, centrado no papel e nas decisões. Quanto mais objetivo e visual, maior a assimilação.
O impacto do vídeo não é só preferência é eficácia. Estudos recentes indicam que informação transmitida em vídeo é recordada muito mais facilmente do que em texto, e que o tempo útil de atenção em sessões de vídeo raramente ultrapassa os 6–8 minutos. Ou seja: mais importante do que fazer um vídeo longo é fazer um vídeo cirúrgico, claro e conciso, para maximizar retenção e impacto.
Entregar é decidir. No fim, entregar é transformar observação e interpretação num produto visual objetivo, simples e focado, que maximize a probabilidade de o recetor compreender e reter a mensagem. É aqui que a análise deixa de ser apenas análise e passa a ser ferramenta de decisão real.
Do modelo ao relatório
Em essência, o método OIE resume-se em três passos claros:
Observar com critério, filtrando ruído e escolhendo o que importa;
Interpretar com lógica, transformando ações em padrões e organizando-os numa narrativa coerente;
Entregar com propósito, usando o vídeo como produto final claro, simples e adaptado ao recetor.
Aplicar esta lógica ao workflow do analista não é só rigor, é eficiência.
Quando sabemos o que observar, como interpretar e de que forma entregar, o trabalho organiza-se, os processos clarificam-se e o tempo otimiza-se.
Em vez de horas a juntar clipes sem critério, o analista direciona o esforço para aquilo que acrescenta valor: informação útil para quem decide.
E essa utilidade depende sempre de adaptar a mensagem. Um treinador precisa de uma visão global, um jogador, de feedback direto. O relatório tem de refletir essa diferença.
No fundo, o método OIE garante que cada minuto investido se traduz num produto final com impacto real. Não fazer por fazer. Fazer com propósito.
Quero ouvir-te: quais são hoje as tuas maiores dificuldades na elaboração de relatórios?
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