Esta semana, com a pausa FIFA, o futebol abranda um pouco. Os calendários dão espaço, há menos jogos para analisar e mais tempo para refletir. Aproveito esse intervalo para sair um pouco do registo habitual desta newsletter.
Normalmente partilho convosco tendências e dinâmicas táticas. Mas hoje quero escrever quase em tom de carta aberta.
Nos últimos tempos, com a exposição que a Analyst OS tem ganho, tenho recebido muitos contactos: analistas em início de carreira à procura de direção, colegas já dentro de clubes a partilhar experiências e até estruturas à procura de analistas para integrar nas suas equipas.
E, em cada uma dessas conversas, sinto ecos de uma inquietação que sempre me acompanhou: a desvalorização do nosso papel.
O analista entra quase sempre como estagiário. Isso é normal e faz parte do percurso. É aí que se aprende, que se erra, que se cresce.
Mas até certo ponto.
O estágio deve ser um ponto de partida, nunca o destino final.
Ainda assim, demasiadas vezes o analista é visto como um custo dispensável. E dentro da própria estrutura, reduzido a “aquele que corta vídeos”.
É duro escrever isto. Mas é ainda mais duro viver. Porque sei que muitos que estão a ler já sentiram o mesmo: a vontade enorme de estar no futebol… e a frustração de perceber que, para muitos, o nosso trabalho ainda não é levado a sério.
Hoje não vos trago esquemas nem pranchas táticas. Quero falar sobre isto: sobre o que significa ser analista moderno, sobre os erros que não devemos repetir e sobre a importância de não aceitarmos menos do que aquilo que valemos.
O que mais dói nesta função
O maior problema não é só a função em si. É a forma como ela é olhada.
Quando comecei como analista senti isto na pele e sei que muitos de vocês também já passaram pelo mesmo.
Muitos treinadores acreditam que a análise é um trabalho fácil. Pensam que basta “ver jogos e cortar uns vídeos”. Frases como “passas o dia sentado ao computador, é só fazer uns cortes” continuam a resumir, para muitos, aquilo que fazemos.
Ao mesmo tempo, as expectativas são completamente desajustadas. Entramos como estagiários, o que é normal e faz parte do percurso, mas logo aí exigem-nos trabalho de profissionais. Clubes amadores pedem a mesma qualidade de um gabinete de análise de topo, sem recursos, sem estrutura, sem tempo.
Quando chega o momento de falar de valor, a realidade é ainda mais dura. Querem análise da nossa equipa, do adversário, dos treinos, relatórios estatísticos… mas oferecem 300 ou 400 euros. Quando oferecem!
Para muitos, o analista é um custo dispensável, não um investimento.
E depois vêm as condições. Pedidos feitos às 21h para entregar no dia seguinte.
E há ainda um detalhe que poucos entendem: o analista raramente tem folgas. Os jogos acontecem, por exemplo, ao sábado, o domingo é, em teoria, o dia de descanso… mas na segunda-feira o relatório de vídeo tem de estar pronto para o primeiro treino da semana. E adivinhem quem passa o domingo inteiro a trabalhar nesse relatório? Exato. O analista, enquanto os outros descansam.
Jornadas de trabalho que roubam tempo à vida pessoal, momentos com família e amigos trocados por relatórios de última hora. O analista é, muitas vezes, o último a ser contratado e o primeiro a sair quando há cortes. Dentro da própria estrutura, raramente tem voz: entrega material, mas não participa na decisão.
É isto que dói. E é isto que precisa de ser dito.
Porque enquanto aceitarmos esta realidade como normal, vamos continuar a alimentar a ideia de que o analista vale pouco.
O que realmente significa ser analista
Ser analista não é cortar vídeos. Não é passar horas a juntar clipes só porque alguém pediu. Isso é apenas a superfície.
O analista moderno é, acima de tudo, quem observa, interpreta e transforma a complexidade do futebol em informação clara, que ajude a equipa a decidir melhor.
O seu trabalho não termina no computador.
Termina no campo, quando essa informação se traduz em treino, em ajustes estratégicos, em decisões mais inteligentes e fundamentadas.
A função real do analista é transformar dados e imagens em conhecimento aplicável.
➡️ Identificar padrões do adversário que ajudam a preparar a equipa para o que vai enfrentar.
➡️ Revelar aspetos do nosso próprio jogo que precisam de ser corrigidos ou potenciados.
➡️ Apoiar jogadores individualmente, acelerando a sua evolução com feedback concreto, adaptado ao seu contexto.
➡️ Ser um filtro de informação para a equipa técnica, reduzindo ruído e focando no que realmente importa.
Quando é valorizado e integrado, o analista deixa de ser “o que ajuda” para se tornar uma peça que muda o processo.
➡️ O treino fica mais direcionado porque parte de evidências, não de impressões.
➡️ A preparação para o jogo é mais sólida porque assenta em padrões claros e não em palpites.
➡️ O feedback ao jogador é mais específico, o que acelera o seu desenvolvimento.
É isto que muitos ainda não entendem: a análise não é um luxo. É uma necessidade competitiva.
No futebol moderno, onde os detalhes decidem, o analista é quem garante que a equipa não joga às cegas.
O que precisamos de mudar em nós
E é aqui que está o verdadeiro desafio.
Porque, apesar de tudo o que já sabemos sobre a importância da análise, muitos continuam a aceitar muito pouco em troca de muito trabalho.
Aceitam porque querem estar dentro do futebol. Aceitam porque têm medo de perder a oportunidade. Aceitam porque acham que “é assim que funciona”.
Mas é esse ciclo que perpetua a desvalorização da nossa função.
Se o analista se contenta em ser visto como “o rapaz dos cortes”, o clube nunca o vai tratar como mais do que isso.
Se o analista aceita condições precárias sem questionar, o clube vai continuar a achar que análise é barata e dispensável.
Sim, precisamos de não aceitar menos do que valemos.
Mas também precisamos de ser honestos: não basta exigir mais se não estivermos preparados para entregar mais.
A exigência vem sempre acompanhada de responsabilidade.
Responsabilidade de apresentar trabalho de qualidade, de estudar, de evoluir, de questionar o nosso próprio processo.
Responsabilidade de não ficar preso ao conforto do que já sabemos, mas de procurar sempre ver o jogo de uma forma mais clara e profunda.
O analista moderno precisa de se posicionar com exigência e consciência:
➡️ Valorizar o seu trabalho e o seu tempo.
➡️ Mostrar impacto real, para que ninguém o reduza ao “rapaz dos cortes”.
➡️ Manter um mindset de aprendizagem contínua, porque só assim a função cresce connosco.
No fim, a mudança começa dentro de nós.
Se queremos que o papel do analista seja respeitado, temos de começar por respeitar o nosso próprio trabalho: não só pedindo mais, mas também dando mais.
Uma carta, não um desabafo
Ser analista nunca foi, e nunca será, fácil.
É uma função que vive na sombra, que exige horas invisíveis, sacrifícios pessoais e uma resiliência que poucos fora deste meio conseguem compreender.
Mas também é uma função capaz de transformar o jogo.
Quando é feita com qualidade, pode mudar a forma como uma equipa treina, como prepara um jogo, como um jogador evolui.
O nosso papel não é pedir desculpa por existir. É mostrar, todos os dias, que somos indispensáveis.
E para isso precisamos de duas coisas: exigência e evolução constante. Exigência para não aceitarmos menos do que valemos. Evolução para que ninguém tenha dúvidas de que estamos à altura do que pedimos.
Esta carta não é um desabafo. É um apelo.
Para que cada analista valorize o que faz.
Para que cada clube perceba o que pode ganhar quando dá à análise o espaço que merece.
Porque no fim, a diferença entre ser “o rapaz dos cortes de vídeo” e ser um analista moderno está em nós.
Na forma como nos posicionamos.
E também na forma como quem está à nossa volta escolhe valorizar (ou não) o nosso papel.
Se és analista, espero que esta carta te ajude a refletir sobre o teu caminho.
Se não és, talvez ajude a olhar para a análise com outros olhos.
Quero ouvir a tua perspetiva: já sentiste, de dentro ou de fora, esta desvalorização da função? Se sim, porquê?
Responde a este email e partilha comigo a tua visão.