Nota #05 — O que vai marcar a época 25/26

Do problema à resposta

A época passada ficou marcada por um princípio que se espalhou pelas principais ligas europeias: a pressão híbrida homem-a-homem.

Um modelo que ganhou consistência pela forma como soube combinar duas ideias em tensão permanente (Zona vs HxH):

1️⃣ O ponto de partida zonal, assegurando ocupação racional do espaço.

2️⃣ O salto agressivo para referências individuais assim que surge o trigger definido.

3️⃣ O objetivo: condicionar a decisão, forçar o erro ou obrigar o adversário a jogar longo.

Este modelo devolveu intensidade ao momento defensivo, obrigou os ataques a tomar decisões sob constante desconforto e expôs um problema central: como progredir contra uma pressão que equilibra espaço e homem ao mesmo tempo?

É precisamente aqui que nascem as tendências para 25/26.

O jogo evolui sempre por reação. As novas dinâmicas que começam a emergir não são fruto do acaso, são respostas criadas para contrariar uma determinada dificuldade no jogo.

👉 O desafio para os analistas é este: reconhecer esses sinais antes de se tornarem padrão. Porque quem entende as razões por trás da mudança, consegue antecipar o que vai moldar a época seguinte. Nesta nota reunimos cinco tendências táticas que já se fazem sentir em diferentes contextos competitivos e que prometem marcar o futebol desta temporada.

Tendência 1 — Laterais a atacar na linha

(Touchline Attacking Full-Backs)

Se a época passada ficou marcada pela forte utilização de laterais invertidos, já começamos a ver sinais de algumas equipas a regressarem ao uso de laterais colados à linha para fixar a largura.

Este posicionamento abre a possibilidade de concentrar mais jogadores no corredor central, criando densidade e superioridade em zonas interiores.

Com os laterais a dar largura, os extremos e médios ofensivos podem aproximar-se entre si, favorecendo:

➡️ Combinações curtas em espaços reduzidos;

➡️ Maior reação imediata à perda, por haver mais jogadores perto da bola;

➡️ Uma divisão estrutural clara: 3-1-6, com maior ocupação entrelinhas e na última linha;

É uma forma de obrigar o adversário a esticar o bloco defensivo, libertando espaço para que médios e interiores consigam receber e combinar no meio.

Exemplos que começam a surgir:

✅ Manchester City de Guardiola, onde esse posicionamento pode aparecer com Aït-Nouri e Matheus Nunes nos corredores.

✅ O Liverpool de Arne Slot, que se reforçou com laterais de perfil exterior como Frimpong e Kerkez, confortáveis em dar largura máxima.

Não é apenas um regresso a algo já conhecido, mas uma possível resposta às dificuldades criadas pela pressão híbrida homem-a-homem.

Tendência 2 — Avançados divididos

(Split Strikers & High Box)

A largura fixada pelos laterais abriu espaço para outra dinâmica: a utilização de dois avançados em simultâneo, posicionados entre lateral e central adversário.

Esta configuração permite formar uma espécie de “high box” (caixa alta), diferente da habitual 3-2-5.

Aqui, a caixa surge mais adiantada, atrás da primeira e segunda linha de pressão, criando novas soluções de progressão.

O impacto é evidente:

➡️ Mais jogadores posicionados nas costas da pressão, oferecendo linhas de passe verticais.

➡️ Maior ameaça de profundidade, porque os dois avançados esticam a última linha defensiva.

Exemplos recentes confirmam a tendência:

✅O Manchester City, ao fixar largura com laterais (Aït-Nouri e Matheus Nunes) e colocar dois avançados a dividir os centrais (Marmoush e Haaland).

✅O Chelsea no Mundial de Clubes, ao juntar Pedro Neto a João Pedro ou Liam Delap, explorou precisamente este posicionamento para gerar superioridade ofensiva.

Mais do que uma variação posicional, é uma forma de manipular a pressão adversária e criar mais opções de progressão vertical.

Tendência 3 — Laterais de chegada à área

Outra tendência que começa a emergir está ligada à capacidade dos laterais aparecerem em zonas de finalização.

Num contexto marcado pela pressão híbrida, em que quase todos os jogadores têm uma referência direta, o lateral é muitas vezes aquele que fica sem uma marcação clara.

E aqui nasce a dúvida para o adversário:

➡️ O extremo acompanha até ao fim?

➡️ É o médio que ajusta?

➡️ Ou fica um vazio temporário?

Essa indefinição abre espaço para que o lateral apareça como homem livre em zonas altas, chegando mesmo à área para finalizar.

Exemplos recentes ilustram bem esta ideia:

✅ Cucurella no Chelsea, projetado até zonas de remate, surgindo sem oposição direta.

✅ Hakimi no PSG, decisivo por aparecer como peça extra em movimentos ofensivos.

✅ Gvardiol no Manchester City, que marcou vários golos ao interpretar precisamente esta função.

Mais do que laterais a “vaguear”, estamos a ver laterais de chegada à área, jogadores que exploram o vazio criado pela rigidez das marcações e rompem até zonas onde o adversário não tem resposta imediata.

Não é um papel totalmente novo, mas o contexto atual parece estar a dar-lhe uma importância renovada.

Tendência 4 — Construção a 3 fluida

(Fluid Back-Three Build-Up)

Com cada vez mais equipas a pressionarem com dois jogadores na frente, torna-se essencial criar uma superioridade de +1 na saída sem tornar a construção previsível.

É aqui que entra a construção a 3 fluida: uma linha de três que não é fixa, mas que se adapta consoante o momento.Essa linha pode ser formada de diferentes formas:

➡️ Um médio a baixar — ora entre os centrais, ora por fora deles.

➡️ Um lateral a fechar dentro, enquanto o oposto se projeta.

Ao variar o jogador que forma a linha de 3, torna-se mais difícil para o adversário encaixar referências individuais na pressão.

O impacto desta variação é duplo:

1️⃣ Criar uma plataforma mais estável contra pressões altas.

2️⃣ Manipular marcadores e abrir novas linhas de passe.

Mais do que um sistema rígido, trata-se de uma resposta adaptativa — um mecanismo para garantir superioridade e estabilidade na construção, mesmo contra pressões organizadas.

Tendência 5 — Esvaziar o corredor central

(Emptying Central Space)

Outra tendência que começa a ganhar destaque é a de esvaziar intencionalmente o corredor central.

Contra equipas que pressionam homem-a-homem, o meio torna-se a zona mais congestionada, cada receção é pressionada de imediato, sem tempo para pensar.

A resposta que algumas equipas estão a adotar é contraintuitiva:

➡️ retirar jogadores do meio, arrastando marcadores para abrir espaço.

O processo segue uma lógica clara:

1️⃣ Primeiro, a equipa provoca o início da pressão adversária.

2️⃣Assim que o trigger é ativado, os médios centrais iniciam movimentos para fora, arrastando os seus marcadores diretos.

3️⃣ Esse vazio torna possível ligar de forma diferente: passe vertical ou diagonal mais longo, que encontra um jogador livre e de frente para o jogo.

4️⃣ O espaço libertado é então atacado por quem chega de trás, em corrida e sem oposição imediata.

Este comportamento é particularmente visível no triângulo de meio-campo do PSG. Vitinha, João Neves e Fabián Ruiz têm dado uma mobilidade constante ao setor,alternando movimentos de atração para fora com chegadas posteriores para ocupar o espaço aberto no centro.

Esvaziar o meio não é abdicar dele. É transformá-lo num espaço de chegada, explorado no momento em que está mais vulnerável.

O desafio do analista

Olhando para estas tendências, percebemos que nenhuma surge por acaso. Cada dinâmica nasce como resposta a um problema colocado pela época anterior.

O futebol é cíclico: uma ideia ganha espaço, outra emerge para contrariá-la.

O desafio para o analista está aqui: não basta identificar o que está a acontecer agora.

É preciso perceber o porquê de cada mudança, o contexto que a gera e a direção que pode tomar a seguir.

É por isso que falamos em tendências como pistas e não certezas.

São sinais de para onde o jogo pode estar a caminhar, não verdades definitivas. O que hoje parece uma solução consolidada, amanhã pode ser apenas mais um capítulo no ciclo de evolução constante.

O que distingue o analista não é rotular a tendência, mas entender a lógica que a sustenta e a partir daí, estar preparado para reconhecer os próximos sinais de mudança.

Mais do que acumular conceitos, trata-se de cultivar um mindset de aprendizagem contínua: observar, questionar, adaptar.

Porque no futebol, estar atualizado não é uma opção… é uma necessidade.

Até para a semana

PS: Trabalho individualmente com analistas e treinadores que querem ganhar clareza no jogo, no método e no modelo. Sessões focadas em leitura tática, organização do processo e ligação entre análise, treino e decisão. Sessão 1:1 - Saber mais

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