Nota #04 — Os sistemas mentem

"Jogam em 4-3-3."

É quase sempre a frase que abre uma análise.

Mas esse rótulo diz muito pouco.

O sistema tático é apenas uma fotografia inicial: o posicionamento de partida, a grelha

que serve de referência para alinhar jogadores.

O jogo, no entanto, não é estático.

Basta a bola começar a rolar para o desenho se transformar.

➡️ Um lateral que entra por dentro pode mudar um 4-3-3 para um 3-2-5.

➡️ Num 4-2-3-1, se um lateral ficar mais baixo e fechado e o outro se projetar aberto, a estrutura também se converte num 3-2-5.

➡️ A defender, se o médio defensivo baixa entre os centrais, o 4-3-3 rapidamente parece um 5-4-1.

➡️ O mesmo acontece se um extremo acompanha a subida do lateral adversário:

fecha o corredor e junta-se à última linha, transformando novamente o 4-3-3 num 5-4-1.

De repente, o que parecia um sistema fixo já não é.

E é aqui que está o engano: as estruturas mentem.

Se ficarmos apenas no rótulo, corremos o risco de analisar a aparência e ignorar a essência.O que distingue as equipas não é a grelha de partida, mas sim as dinâmicas, as relações e as assimetrias que surgem em cada fase do jogo.

É aí que se vê a identidade.

E é aí que o trabalho do analista faz a diferença.

O sistema como referência (e porque não explica tudo)

O sistema tático é muitas vezes tratado como se fosse a chave para entender uma equipa. Mas, na prática, é apenas uma referência estrutural.

Serve para orientar o posicionamento inicial dos jogadores e indicar para onde devem regressar quando a jogada termina.

O problema é que o sistema mostra apenas a disposição de partida, sem explicar o que acontece durante a jogada.

Diz-nos quantos defesas ou médios aparecem no papel, mas não revela como esses jogadores se relacionam entre si ou que funções desempenham em diferentes momentos do jogo.

Por isso, analisar apenas pelo sistema pode induzir em erro. Dois treinadores podem alinhar em 4-3-3 e, ainda assim, oferecer interpretações completamente distintas:

➡️ um pode pedir aos laterais que abram e deem largura máxima;

➡️ outro pode trazer os laterais para dentro e usar os extremos para fixar a largura.

O desenho é o mesmo. O jogo, completamente diferente. 

É por isso que o sistema, isolado, não explica intenção, nem comportamentos. É um ponto de partida útil, mas insuficiente para compreender a identidade de uma equipa.

Dinâmicas e ajustes que transformam o sistema

Se o sistema é a fotografia inicial, são as dinâmicas coletivas e os ajustes individuais que filmam a realidade do jogo.

Um mesmo 4-3-3 ou 4-2-3-1 pode assumir várias formas ao longo do jogo, dependendo das ligações criadas entre jogadores.

Exemplos claros de como um 4-3-3 pode ganhar diferentes formas:

➡️ Quando o médio defensivo baixa entre os centrais e os laterais se projetam, a equipa organiza-se num 3-2-5.

➡️ Se o lateral esquerdo inverte para dentro para se juntar à linha média e o lateral direito centra o seu posicionamento para uma construção a 3, a estrutura ajusta-se para um 3-2-5.

➡️ Quando o lateral esquerdo se junta aos centrais para formar a linha de três e o lateral direito se projeta no corredor por dentro ou por fora, surge novamente o 3-2-5.

➡️ E se os dois laterais invertem e ficam mais baixos, a equipa mantém-se num 4.3.3 mas com uma estrutura de construção de 2+3.

O detalhe está menos no “sistema declarado” e mais em quem ajusta e para onde.

Cada posicionamento de um lateral, cada recuo ou subida de um médio redefine momentaneamente a estrutura e cria novas referências para atacar ou defender.

👉 A verdadeira identidade de uma equipa não está no número que descreve o sistema, mas na forma como os jogadores se relacionam e transformam o desenho em campo.

E é por isso que, para o analista, não basta dizer que uma equipa joga em “4-3-3”.

A questão central é: como é que esse 4-3-3 se transforma em campo?

Responder a esta pergunta é o que distingue uma análise superficial de uma leitura real do jogo.

O olhar do analista: além do sistema

Até aqui, falámos do sistema e das dinâmicas que o distorcem. Mas para o analista, a questão não é apenas reconhecer que a estrutura muda, é perceber como e porquê. O valor da análise está em perceber o que acontece para lá do desenho inicial.

Há quatro dimensões que ajudam a dar profundidade a essa leitura:

1️⃣ Relações posicionais

A forma como os jogadores se ligam entre si define o que a equipa realmente é em campo. 

Mais importante do que os números é perceber quem se relaciona com quem e em que zonas.

2️⃣ Assimetrias funcionais

Poucas equipas procuram simetrias perfeitas. A assimetria é um recurso, não um erro.

Surge muitas vezes das próprias características individuais dos jogadores: um lateral mais confortável por dentro, outro que oferece profundidade por fora; um médio que procura baixar para receber a bola no pé, outro que se sente melhor a atacar espaço. Essas diferenças criam equilíbrios novos e dão identidade ao modelo.

3️⃣ Jogadores que variabilizam o sistema

Alguns jogadores têm a capacidade de alterar momentaneamente a perceção do sistema com pequenos ajustes de posicionamento.

Tal como já referimos anteriormente, os laterais são hoje um exemplo claro no futebol moderno. Um simples ajuste — inverter para dentro, projetar-se aberto ou alinhar-se com os centrais — pode redefinir a estrutura momentaneamente. 

Mas não são os únicos: médios e avançados também assumem funções que distorcem o sistema base e dão novas leituras à equipa.

É essa variabilidade que torna o jogo mais difícil de catalogar e obriga o analista a ir além da “fotografia” do sistema.

4️⃣ Variação consoante contexto

A configuração não depende apenas da equipa em si, mas também do que o adversário faz ou permite fazer. A forma como pressiona, a zona do campo onde a jogada decorre e até as opções estratégicas definidas para o jogo influenciam os comportamentos coletivos.

Perceber estas variações não é só identificar onde os jogadores estão, mas porque estão ali e o que essa escolha procura resolver ou explorar.

O que distingue uma análise de valor não é apenas apontar mudanças estruturais, mas traduzir o que elas revelam sobre intenção, modelo e estratégia.

Não se trata de “etiquetar” um sistema, mas de explicar o significado das dinâmicas que o transformam.

👉 É essa leitura que separa uma descrição superficial de uma análise que acrescenta conhecimento.

Quando o sistema engana, a análise revela

No fim, fica claro que o sistema é apenas a capa. Serve como referência inicial, mas não traduz a essência do jogo.

O que realmente dá identidade a uma equipa são as relações posicionais, as assimetrias criadas e os pequenos ajustes individuais que transformam constantemente o desenho de base.

É por isso que dizer “jogam em 4-3-3” ou “estão em 4-4-2” pouco explica sem compreender como esses sistemas se distorcem em campo.

O verdadeiro valor da análise está em revelar a intenção por trás desses movimentos e as consequências estratégicas que trazem para o jogo.

Na semana passada, muitos de vocês partilharam os vossos exemplos de pressão híbrida e foi incrível ver diferentes perspetivas aplicadas a jogos reais.

Obrigado por isso!

Esta semana, deixo-vos um novo desafio: conseguem identificar uma equipa em que o sistema “mente”?

Um caso em que a ficha de jogo sugere uma coisa, mas a realidade em campo mostra outra totalmente diferente?

Responde a este email e partilha o teu exemplo, vamos trocar ideias.

Até para a semana.

PS: Trabalho individualmente com analistas e treinadores que querem ganhar clareza no jogo, no método e no modelo. Sessões focadas em leitura tática, organização do processo e ligação entre análise, treino e decisão. Sessão 1:1 - Saber mais

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