Porque alguns recebem e progridem… e outros recebem e recuam
Em qualquer jogo, há quem receba e consiga imediatamente jogar para a frente… e há quem, em situações idênticas, acabe por devolver ou jogar para trás.
A diferença raramente está apenas na qualidade técnica.
Na maioria das vezes, está no que acontece antes da bola chegar:
➡️ A posição do corpo para receber de forma orientada;
➡️ O ajuste das distâncias em relação a colegas e adversários;
➡️ A leitura do espaço feita nos segundos anteriores, através de scanning…
Quando estes fatores se alinham, aumentam drasticamente as hipóteses de progredir.
E é aqui que entra o Zero-Point.
O que é o Zero-Point?
É um posicionamento específico que maximiza a probabilidade de receber e jogar para a frente.
É o posicionamento que coloca o jogador exatamente entre os dois adversários mais próximos, criando ângulos e tempo para receber de frente e jogar para zonas mais adiantadas.
Dominar esta posição é transformar receções normais em ações que quebram linhas e aproximam a equipa da baliza adversária.
A ideia é simples: que os jogadores se coloquem de forma a que a linha de passe do portador para o espaço mais valioso (normalmente em direção à baliza) passe entre dois adversários, e não “através” de um deles.
Para isso, é necessário identificar os dois defensores mais próximos e imaginar uma linha que os une. Essa linha é o gap.
O jogador que procura o Zero-Point posiciona-se perpendicularmente a esse gap, criando um triângulo onde:
➡️ Os dois adversários formam a base;
➡️ O próprio jogador é o vértice.
Quanto mais equilibradas forem as distâncias entre o jogador e cada um desses dois defensores, maior será a abertura do espaço e o tempo disponível para receber e executar.
Este não é um conceito para se medir com régua e esquadro em cada jogada.
É uma referência simples para ajudar a encontrar posições que aumentam as hipóteses de jogar para a frente. Não se trata de estar milimetricamente “no ponto certo”, mas sim de usar o posicionamento para ganhar tempo, espaço e melhores ângulos.

Porque o Zero-Point funciona e cria vantagem imediata?
O Zero-Point não é apenas uma questão de posicionamento “bonito”.
É uma mecânica tática que cria vantagem imediata, capaz de transformar a forma como a equipa progride e ataca.
1️⃣ Abre uma linha progressiva
Ao posicionar-se entre dois adversários, o jogador oferece ao portador uma linha de passe ou de condução que progride no campo assim que a bola entra.
2️⃣ Cria dúvida no adversário
Os dois defensores que formam o gap ficam numa situação de indecisão:
➡️ Quem salta para pressionar?
➡️ Quem fecha o espaço?
Este atraso decisional, mesmo que seja de frações de segundo, dá mais tempo ao portador e ao recetor para executar.
3️⃣ Facilita ações orientadas para a frente
O recetor, ao estar bem posicionado no triângulo, recebe de frente para zonas mais adiantadas, o que aumenta a probabilidade de acelerar o jogo e quebrar linhas.
Resultado: mais tempo, mais ângulo, mais probabilidade de transformar a receção numa ação que aproxima a equipa da baliza.

A prova em dados
A Smart11 analisou 8 715 receções de centrais em fase de construção no EURO 2020, utilizando dados StatsBomb 360, para medir o impacto real de receber em Zero-Point.
O retrato é claro:
➡️ Apenas 29% das receções ocorreram em Zero-Point -> mesmo ao mais alto nível, esta é uma situação pouco explorada.
➡️ Probabilidade de ação progressiva: 34% em Zero-Point vs 21% fora dele (+60% de probabilidade relativa).
➡️ Passes para trás: caem de 29% para 21%.
➡️ Distância média ganha rumo à baliza: 8,4 m vs 4,8 m.
➡️ Precisão de passe: mantém-se nos 93%.
Conclusão: receber no Zero-Point aumenta a probabilidade de jogar para a frente, reduz passes para trás e duplica o avanço médio no campo, sem aumentar o risco de perda de bola.

Onde se aplica mais (e não é só para centrais)?
Apesar de ser um conceito mais estudado e evidenciado em situações de construção, o Zero-Point é um princípio transversal.
Surge na construção, quando um central, lateral ou médio que baixa e se posiciona de frente para o jogo recebe fora da sombra de pressão e cria logo uma linha progressiva.
Aparece na progressão/criação, quando um médio entrelinhas ou um extremo interior encontra o gap certo para receber de frente e acelerar contra a última linha.
E é igualmente útil na finalização, quando um avançado se coloca entre dois defesas, pronto para receber em rutura ou finalizar.
O contexto muda, mas a lógica é sempre a mesma: usar a posição para ganhar tempo, espaço e ângulo para jogar para a frente.
Do conceito à análise
O Zero-Point não é só uma curiosidade tática.
É um critério de observação que pode (e deve) estar presente no processo de análise seja para avaliar a própria equipa ou o adversário.
Na análise coletiva, pode revelar padrões sobre como as equipas procuram progredir. Identificar os setores e corredores onde mais vezes procuram o gap, perceber como moldam a estrutura para o criar e, no sentido inverso, reconhecer onde a nossa estrutura oferece esse espaço.
Na análise individual, transforma-se numa referência concreta para melhorar a tomada de decisão do jogador: posicionar-se no ponto certo entre dois adversários, ajustar a orientação corporal e antecipar o momento certo para receber.
O Zero-Point é um filtro simples para avaliar se as receções aproximam a equipa da baliza ou apenas mantêm a posse. E, no fim, é isso que distingue as equipas que controlam o jogo das que apenas o jogam.
Vemo-nos para a semana!