Nota #56 - Jogar confortável no caos | As ideias que permitem à Roma de Gasperini competir num jogo constantemente instável.

Um jogo que nunca estabiliza

Roma x Inter foi um daqueles jogos em que senti dificuldade em encontrar uma imagem verdadeiramente estável.

Sempre que uma das equipas parecia conseguir organizar a posse, surgia pressão. Quando essa pressão era superada, a tendência era acelerar. Depois vinha o duelo, a perda, a recuperação e uma nova tentativa de chegar rapidamente à baliza adversária.

O jogo raramente ficava muito tempo no mesmo momento.

Para quem analisa, isto cria uma dificuldade interessante. Procuramos pontos de apoio que nos ajudem a interpretar aquilo que vemos: estruturas reconhecíveis, distâncias entre jogadores, relações posicionais ou momentos suficientemente estáveis para perceber a intenção de uma equipa.

Neste jogo, esses pontos de apoio estavam sempre a mudar.

E isso era particularmente evidente na Roma.

Bastava parar a imagem em determinados momentos para encontrar uma equipa que, segundo muitos dos critérios que normalmente utilizamos para avaliar organização, parecia estar completamente fora do sítio.

Só que o jogo continuava.

E aquilo que numa imagem parada parecia uma vantagem para o Inter nem sempre se transformava numa vantagem real.

Foi aí que comecei a olhar para o jogo a partir de outra pergunta:

Porque é que uma equipa que passa tanto tempo em posições aparentemente desconfortáveis consegue sentir-se tão confortável no caos?

Para perceber a resposta, temos primeiro de olhar para uma das características mais marcantes das equipas de Gasperini: a importância que atribuem à referência individual.

Quando a referência individual altera a estrutura

Quando o Inter inicia a construção, os jogadores da Roma identificam referências diretas e estão preparados para acompanhá-las durante bastante tempo. A partir daí, os movimentos do adversário começam também a determinar a posição dos jogadores da Roma.

Se um médio baixa para participar na construção, vai levar consigo o jogador que o acompanha. Se um avançado abandona a última linha para procurar receber entre setores, um central vai sair com ele. E essas perseguições podem prolongar-se por muitos metros.

Muitas equipas utilizam referências individuais na pressão alta, mas tendem a recuperar comportamentos mais zonais à medida que se aproximam da própria baliza. A Roma leva estas referências muito mais longe. As perseguições mantêm-se em bloco médio e até em bloco baixo, e raramente encontramos uma linha defensiva alinhada.

É por isso que, em determinados momentos, se torna difícil olhar para a Roma e reconhecer imediatamente a sua estrutura inicial.

Um central pode aparecer vários metros à frente dos restantes. Um médio pode ser arrastado para uma zona exterior. Um jogador pode abandonar um espaço que, numa organização mais zonal, provavelmente continuaria ocupado.

Se analisarmos apenas o momento final, algumas destas posições parecem difíceis de justificar.

O trabalho está em reconstruir a sequência.

Onde começou aquela referência? Que movimento do adversário provocou a perseguição? Quem ficou responsável pelo jogador que entrou no espaço libertado? Como se reorganizaram os restantes jogadores à volta desse duelo?

É através destas relações que começamos a compreender a organização defensiva da Roma. Cada perseguição altera as posições à volta da bola e obriga os restantes jogadores a reconhecer o que está a acontecer e a ajustar as próprias referências.

Esta forma de defender também cria espaço.

Sempre que alguém abandona uma zona para acompanhar o adversário, existe a possibilidade de outro jogador tentar ocupá-la. E, quando várias perseguições acontecem ao mesmo tempo, podemos encontrar grandes distâncias e espaços aparentemente disponíveis.

São esses os momentos em que a Roma começa a desafiar a nossa leitura do jogo.

Porque encontrar espaço contra esta equipa não significa necessariamente conseguir aproveitá-lo.

A falsa sensação de vantagem

Quando uma equipa defende com referências individuais tão agressivas, surgem inevitavelmente momentos em que o adversário consegue superar a primeira pressão.

Contra a Roma, algumas dessas situações parecem particularmente favoráveis.

Um jogador recebe com espaço. Há metros disponíveis à sua frente. Uma perseguição retirou um defesa da linha e, durante alguns segundos, parece que o Inter conseguiu finalmente explorar aquilo que a organização da Roma deixou disponível.

Foi uma sensação que tive várias vezes durante este jogo.

O problema é que muitas dessas vantagens desapareciam muito depressa.

Há um conceito que ajuda a perceber porquê. Quando um jogador pressiona em direção à baliza adversária, faz um movimento positivo. Quando é obrigado a correr de frente para a própria baliza, faz um movimento negativo. E um movimento negativo diz-nos que a pressão foi superada e que o defensor está a tentar recuperar a posição.

Contra a maioria das equipas, provocar movimentos negativos já é uma forma de criar vantagem. Contra esta Roma, muitas vezes era apenas o início do duelo seguinte. A equipa recuperava metros, encurtava novamente as distâncias e transformava uma situação aparentemente favorável ao Inter num novo confronto individual.

Para compreender o funcionamento coletivo desta equipa, temos por isso de olhar para a capacidade individual dos seus jogadores.

Esta forma de defender expõe-os com frequência a situações em que precisam de perseguir, recuperar espaço e defender sozinhos. A estrutura pode criar o problema, mas a capacidade física e defensiva dos jogadores permite muitas vezes resolvê-lo antes de o adversário conseguir aproveitar.

E isso obriga-nos a pensar melhor sobre aquilo a que chamamos vantagem.

Ter espaço disponível é uma vantagem potencial. Para que se transforme numa vantagem real, tem de ser utilizado antes de o adversário recuperar.

Foi algo que também senti quando enfrentei a Atalanta de Gasperini no Sporting.

Durante a preparação, identificávamos situações que pareciam favoráveis. O um contra um do nosso avançado, por exemplo, dava muitas vezes a sensação de ser um caminho para criar vantagem. Depois, no campo, percebíamos como era difícil concretizá-lo. Não era só uma questão física. Nas microações, na gestão das distâncias, nos apoios e na utilização do corpo, aqueles jogadores eram extremamente competentes.

É uma experiência que me ajuda a interpretar aquilo que vejo agora na Roma.

Existem espaços e existem riscos nesta forma de defender. A questão está em perceber quanto tempo esses espaços permanecem disponíveis e que condições o adversário tem para os explorar.

Talvez seja essa uma das perguntas que este tipo de organização deixa a quem prepara jogos:

Quando identificamos espaço, estamos realmente perante uma vantagem ou apenas perante a possibilidade de criar uma?

E com bola, o espaço também é levado ao extremo

A mesma sensação de estranheza aparece quando a Roma tem bola.

Na construção, os centrais abrem bastante a primeira linha e os médios baixam para o espaço entre o central exterior e o central do meio.

Ao mesmo tempo, vários jogadores posicionam-se altos, próximos da última linha adversária.

O resultado é uma ocupação pouco habitual: há momentos em que o corredor central e os espaços intermédios ficam praticamente sem jogadores da Roma.

Se olharmos apenas para essa zona, parece faltar alguém. Há poucas soluções interiores para ligar o jogo e menos jogadores entre linhas do que seria habitual numa equipa que procura progredir por dentro.

É quando alargamos o olhar que começamos a perceber o que esta ocupação provoca.

A Roma distribui os jogadores quase em círculo à volta do bloco do Inter e cria relações muito próximas nos corredores exteriores. Normalmente, associamos o jogo por fora a relações entre lateral, extremo e médio. Aqui, a mesma zona pode juntar médio, central exterior, ala e avançado. Há mais jogadores a participar, mais combinações possíveis e diferentes alturas que obrigam o adversário a tomar decisões.

E cada decisão pode provocar a seguinte.

Como as distâncias por fora são curtas, qualquer jogador do Inter que salte para pressionar quem recebe pode libertar quem estava nas suas costas. Se outro defensor responde e abandona a sua referência, abre-se uma nova possibilidade de progressão.

A vantagem começa, por isso, na dúvida que estas relações conseguem criar.

E é daqui que o espaço vazio no centro ganha sentido. A ausência de jogadores nessa zona está diretamente ligada à concentração de soluções noutros espaços.

Isto deixa uma reflexão útil para a análise.

Quando observamos uma equipa em posse, é natural procurarmos onde estão os jogadores, quantos ocupam cada corredor e que linhas de passe conseguem criar. Mas os espaços que ficam vazios também nos dão informação.

Às vezes, compreender porque determinada zona está vazia ajuda-nos a perceber melhor aquilo que a equipa está a tentar provocar noutra.

Quando um central deixa de parecer central

Há outra dinâmica que ajuda a perceber até onde pode chegar esta ocupação ofensiva da Roma.

Os centrais exteriores participam na construção, mas a sua influência pode continuar muito para além desse primeiro momento.

Mancini é um bom exemplo.

Há situações em que começa envolvido na primeira fase, progride pelo corredor e continua o movimento até aparecer próximo da área adversária. Em alguns momentos, chega mesmo a zonas de finalização.

E estas chegadas criam um problema particular.

Quando Mancini aparece junto da última linha, o Inter já tem várias referências para controlar. A Roma tem jogadores altos no campo, procura criar relações por fora e obriga a estrutura defensiva a responder a diferentes movimentações.

É nesse contexto que surge mais um jogador vindo de trás.

A dificuldade está na origem desse movimento. Mancini começa a jogada numa zona onde dificilmente será tratado como uma ameaça à última linha. À medida que a bola progride, continua a avançar e acaba por aparecer numa zona onde tem de ser controlado como qualquer outra referência ofensiva.

Nesse momento, é um jogador que não pertence a ninguém.

E há um fator que torna tudo mais difícil: este comportamento não é regular. Mancini não aparece sempre nas mesmas zonas nem nos mesmos momentos, por isso a linha defensiva não consegue preparar uma resposta fixa.

O adversário tem de reconhecer a chegada em tempo real e decidir quem assume o jogador que entrou. Se alguém abandona a sua posição para responder, a estrutura volta a mexer. Se ninguém responde, Mancini pode continuar o movimento e aparecer livre numa zona muito mais adiantada.

O golo da Roma nasce precisamente desta dinâmica. Mancini envolve-se no ataque, continua o movimento e acaba por ocupar a zona de finalização, abrindo espaço para a aproximação dos médios. Como vamos ver a seguir, o primeiro golo do Inter nasce do mesmo sítio, visto do outro lado.

Esta dinâmica ajuda também a perceber porque é que olhar apenas para a estrutura inicial da Roma nos diz tão pouco sobre aquilo que vamos encontrar alguns segundos depois.

O central que inicia a jogada pode acabar por ser o jogador que aparece para a terminar.

O preço de ocupar o espaço desta forma

As dinâmicas que ajudam a Roma a criar soluções com bola também determinam as condições em que a equipa vai reagir quando perde a posse.

E há dois posicionamentos particularmente importantes para perceber essa relação.

O primeiro é o dos médios.

Durante a construção, baixam para os espaços entre os centrais e ajudam a formar aquela primeira linha muito aberta. Essa posição permite determinadas relações com bola, mas coloca-os longe das zonas centrais onde a equipa vai precisar deles imediatamente após uma perda.

Quando a Roma perde a posse, existe por isso uma distância a recuperar.

E o problema não fica por aí. No momento da perda, os médios podem estar praticamente integrados na linha defensiva. Mas, como médios que são, a tendência é saltar para a frente para reduzir o espaço ao portador. Ao fazê-lo, libertam o espaço nas costas. Uma linha que num instante podia ter cinco jogadores passa a ter três, com grandes distâncias entre eles.

Se essa primeira ação for superada, abre-se espaço no corredor central antes de a Roma conseguir voltar a fechar. Contra uma equipa vertical e agressiva na transição, é uma porta aberta.

Depois existe um segundo problema: a posição dos centrais exteriores.

Jogadores como Mancini têm liberdade para continuar o movimento e envolver-se em zonas muito adiantadas. Essa projeção acrescenta soluções ao ataque, mas altera a distribuição dos jogadores que ficam responsáveis pelo equilíbrio.

O primeiro golo do Inter junta estas duas ideias.

No momento da perda, Mancini está projetado no corredor. A Roma tem um dos seus centrais longe da posição a partir da qual normalmente controlaria a transição, ao mesmo tempo que a ocupação anterior dos médios condiciona a reação nos espaços centrais.

O Inter acelera antes de a Roma reajustar essas posições.

A relação entre organização ofensiva e transição defensiva fica aqui muito clara: aquilo que fazemos com bola determina também onde estaremos quando deixarmos de a ter.

Se os médios baixam para construir, importa perceber quem fica preparado para reagir no centro. Se um central avança para acrescentar uma solução ao ataque, importa perceber como fica protegido o espaço que abandona.

Por isso, quando analisamos dinâmicas ofensivas, a leitura não deve terminar na vantagem que conseguem criar. Há uma pergunta que tem de vir logo a seguir:

Se a bola for perdida agora, onde estão os jogadores que terão de defender a ação seguinte?

Então, porque é que a Roma está confortável no caos?

Depois de olhar para todas estas dinâmicas, a pergunta inicial começa a ter resposta.

A Roma aceita jogar com grandes distâncias, referências individuais que alteram as posições a cada momento, jogadores que abandonam as zonas de partida e uma ocupação ofensiva que pode criar problemas no momento da perda.

Tudo isto aumenta a quantidade de situações que os jogadores têm de resolver sozinhos.

E talvez esteja aqui uma das chaves para compreender esta equipa: a organização de Gasperini exige muito da capacidade individual.

Exige jogadores capazes de perseguir durante muitos metros e continuar a defender. Centrais confortáveis fora da linha e preparados para defender espaços grandes. Capacidade para recuperar metros rapidamente. Qualidade no contacto e no duelo. E jogadores capazes de reconhecer novas referências à medida que as posições se vão alterando.

É isso que explica o que vimos ao longo do jogo. O Inter superava uma pressão, encontrava espaço ou colocava um jogador da Roma longe da posição inicial. Numa imagem parada, parecia vantagem.

Mas o jogo continuava.

E, muitas vezes, a Roma recuperava metros, voltava a condicionar a ação ou ganhava o duelo seguinte antes de o Inter transformar aquela possibilidade numa vantagem efetiva.

Isto deixa uma implicação prática para quem olha para esta equipa com vontade de retirar ideias. Esta organização funciona porque os jogadores conseguem resolver os problemas que ela própria cria. Levar as mesmas referências para uma equipa sem esse perfil pode significar ficar com os riscos sem ter quem os resolva.

E deixa também uma reflexão que vai além da Roma.

Quando analisamos uma equipa, podemos ser tentados a avaliar a sua organização através das posições que encontramos numa determinada imagem. Procuramos distâncias, coberturas, jogadores dentro ou fora da linha e espaços aparentemente disponíveis. Mas importa perceber também o que aquela equipa é capaz de resolver a partir dessas posições.

Eu, enquanto treinador e analista, provavelmente sentir-me-ia desconfortável com várias das situações que a Roma aceita durante um jogo.

Mas isso também me obriga a questionar os meus próprios critérios.

Se uma equipa consegue competir regularmente dentro dessas situações, recuperar os espaços que aparentemente oferece e resolver através dos seus jogadores muitos dos problemas que a própria organização provoca, então talvez tenhamos de olhar para ela para além daquilo que uma imagem parada nos transmite.

Foi essa a ideia que mais me ficou deste Roma x Inter:

Quando uma equipa parece desorganizada, estamos realmente perante um problema?

Ao longo desta nota falei várias vezes da diferença entre uma imagem parada e aquilo que acontece a seguir.

No Inside está precisamente essa parte: a análise completa à Roma de Gasperini, com os clips em sequência e a explicação de cada dinâmica, do encaixe individual ao golo do Inter.

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