Nota #53 - Quando a posição deixa de explicar a função | Como diferentes ocupações podem alterar as referências da pressão adversária.

Esperamos que o avançado seja a referência mais alta, que os centrais estejam na primeira linha de construção ou que os laterais ocupem determinados espaços e estabeleçam determinadas relações.

Não significa que o jogo tenha de acontecer assim. Mas as posições dão-nos referências e ajudam-nos a antecipar algumas das funções que cada jogador poderá assumir.

Para quem prepara uma pressão, estas referências também são importantes.

A forma como decidimos quem pressiona, quem controla, quem salta ou que espaço queremos proteger depende, em parte, daquilo que esperamos encontrar do outro lado.

Foi precisamente uma dessas situações que me voltou a chamar a atenção esta semana, enquanto analisava o Dortmund x Bayern.

Porque uma coisa é preparar a pressão para a estrutura que vemos. Outra é responder às funções que os jogadores realmente assumem dentro dela.

O que acontece à pressão quando um jogador deixa de cumprir a função que a sua posição nos fazia esperar?

Kane, quando o avançado entra na construção

No Dortmund x Bayern encontramos um bom exemplo disso através de Harry Kane.

Em vários momentos de construção, Kane deixa a referência mais alta e baixa para zonas onde passa a relacionar-se diretamente com os jogadores responsáveis pela saída de bola do Bayern.

O primeiro efeito é relativamente simples de identificar: o Bayern acrescenta mais um jogador numa zona onde o Dortmund procura pressionar e pode criar uma situação de superioridade.

Mas aquilo que mais me interessa não é apenas a superioridade. É a decisão que o movimento de Kane provoca no adversário.

Quem o controla quando baixa?

Se uma referência defensiva acompanha o movimento, abandona o espaço ou o jogador que estava inicialmente a controlar. Se ninguém acompanha, Kane pode receber livre e ajudar o Bayern a encontrar uma saída da pressão.

É aqui que a mudança de função começa a ganhar valor.

Kane continua a ser o avançado do Bayern. Mas, naquele momento, a função que assume já não corresponde àquela que a sua posição fazia esperar.

E isso obriga o Dortmund a resolver um problema diferente daquele que a estrutura inicial parecia apresentar.

Quando o lateral passa a dar a profundidade

No mesmo jogo, o Bayern apresentou-nos outro exemplo, mas através de uma dinâmica diferente.

Se com Kane vimos uma referência mais alta baixar para participar na construção, noutros momentos encontramos um lateral a fazer praticamente o caminho contrário.

Perante a pressão do Dortmund, o lateral abandona uma ocupação mais tradicional do corredor e passa a dar profundidade por dentro, no corredor central.

A pergunta a fazer aqui é a mesma que fizemos com Kane, mas aplicada a outra zona do campo: quem fica responsável por essa profundidade quando ela deixa de estar onde era esperada?

A referência que o Dortmund poderia esperar encontrar mais baixa ou numa zona exterior passa a aparecer por dentro e nas costas da pressão. O jogador é o mesmo, mas o problema que coloca ao adversário é diferente.

E isto obriga novamente a tomar decisões.

Quem controla essa profundidade? A referência que estava preparada para pressionar o lateral acompanha o movimento? Passa essa responsabilidade para outro jogador? E, se o fizer, que espaço ou referência fica disponível?

O Bayern não está apenas a movimentar um jogador para um espaço diferente. Está a redistribuir funções dentro da sua estrutura.

Kane aproxima-se para participar na construção. O lateral afasta-se da bola para ameaçar a profundidade.

Movimentos diferentes, através de posições diferentes, mas com algo em comum: a função assumida pelo jogador altera as referências que o adversário esperava encontrar.

Isto não começou agora

Esta discussão está longe de ser nova.

Quando começámos a ver equipas de Guardiola com um lateral a abandonar o corredor para participar na construção por dentro, a posição continuava a dizer-nos “lateral”, mas a função que esse jogador assumia com bola aproximava-o muitas vezes de um médio.

Mais tarde, vimos também centrais a abandonar a primeira linha de construção e a subir para zonas de meio-campo.

O interessante é que, apesar de mudarem os jogadores, as posições e os espaços ocupados, o princípio que estamos a discutir mantém-se.

Se um central que o adversário esperava encontrar na primeira linha passa a aparecer junto dos médios, as referências da pressão também podem ter de mudar.

Quem estava preparado para pressionar esse central acompanha-o? Até onde? Se não acompanha, quem passa a assumir essa referência? E o que acontece às restantes relações da pressão quando alguém tem de responder a esse movimento?

É por isso que não devemos olhar para Kane a baixar ou para um lateral do Bayern a dar profundidade interior como se estivéssemos perante uma nova tendência.

Avançados já baixavam. Laterais já ocupavam espaços interiores. Centrais já avançavam para o meio-campo.

Os três exemplos mostram a mesma distinção de fundo: posição e função não são a mesma coisa. A posição continua a dizer-nos como uma equipa está organizada, mas não determina, por si só, o que cada jogador vai fazer num momento específico. As responsabilidades podem ser redistribuídas sem que a estrutura mude no papel.

Mas o adversário também joga. Pode acompanhar o movimento, trocar referências, ajustar a pressão, ou decidir que aquela mudança não justifica resposta nenhuma. A vantagem não nasce automaticamente da função diferente. Nasce da forma como a equipa explora aquilo que a resposta do adversário deixa disponível.

Mudar a função de uma posição não serve apenas para criar uma solução diferente com bola. Serve também para alterar o problema que o adversário tem de resolver sem ela.

O problema de quem defende

Até aqui olhámos para estas mudanças a partir de quem tem bola. Mas talvez a melhor forma de compreender o seu impacto seja colocarmo-nos do outro lado.

Imaginemos que preparámos uma pressão para condicionar a construção do adversário.

Definimos quem inicia a pressão, que referências queremos controlar, onde queremos orientar a circulação e que espaços estamos dispostos a conceder.

O problema surge quando as referências que encontramos já não correspondem àquelas para as quais nos preparámos.

Se Kane baixa, acompanhamos ou mantemos a nossa posição?

Se o lateral passa a ameaçar a profundidade por dentro, quem assume esse movimento?

Se o central abandona a primeira linha e aparece junto dos médios, seguimos essa referência ou reorganizamos a pressão?

Não existe uma resposta certa que sirva para todas estas situações. E é precisamente esse o ponto.

Cada decisão tem uma consequência.

Acompanhar pode significar abandonar um espaço. Trocar a referência exige coordenação entre jogadores. Manter a estrutura pode permitir ao adversário encontrar um jogador livre.

Por isso, quando uma equipa redistribui funções, pode estar a fazer mais do que procurar uma superioridade numérica ou uma nova linha de passe. Pode estar a colocar a organização defensiva perante decisões que precisam de ser tomadas e coordenadas em muito pouco tempo.

E quanto mais difícil for para quem defende reconhecer quem deve responder, quando deve fazê-lo e quem assume a referência seguinte, maior pode ser a vantagem criada por quem tem bola.

O que isto muda na análise?

Tudo isto também nos obriga a pensar sobre a forma como analisamos uma equipa.

Identificar a estrutura continua a ser importante. Saber que uma equipa constrói com três jogadores, que utiliza dois médios ou que parte de determinada disposição ajuda-nos a organizar aquilo que estamos a observar.

Mas é apenas o ponto de partida.

Se ficarmos pela estrutura, conseguimos organizar aquilo que vemos, mas dificilmente chegamos à intenção por trás dos comportamentos.

Dizer que Kane baixa é identificar um movimento.

Perceber que baixa para acrescentar uma referência na construção, observar quem é obrigado a responder ao seu movimento e identificar onde o Bayern procura encontrar a vantagem a seguir já nos aproxima da intenção desse comportamento.

O mesmo acontece com o lateral que ameaça a profundidade por dentro ou com o central que sobe para a linha média.

Por isso, quando analisamos estas dinâmicas, talvez devamos acrescentar algumas perguntas àquilo que estamos a observar:

Que função está este jogador a assumir?

Porque aparece neste espaço?

Que referência adversária procura alterar?

Que decisão provoca em quem defende?

E, quando o adversário responde, onde procura a equipa encontrar a vantagem seguinte?

É esta passagem da identificação para a interpretação que nos permite compreender melhor uma equipa.

Saber onde os jogadores aparecem é só o ponto de partida. A parte que interessa de facto é perceber porque aparecem ali, que resposta procuram provocar, e onde pretendem encontrar a vantagem seguinte a partir dessa resposta.

No fundo, a estrutura mostra-nos aquilo que podemos encontrar.

As funções ajudam-nos a compreender o problema que a equipa nos está a tentar colocar.

Inside — A análise que deu origem a esta reflexão

Tudo isto começou enquanto analisava o Dortmund x Bayern para a análise semanal do Inside.

Kane a baixar e o lateral a assumir a profundidade interior foram apenas duas das dinâmicas que me fizeram parar e olhar novamente para a forma como o Bayern estava a responder à pressão do Dortmund.

E é precisamente aí que a análise começa a tornar-se interessante.

Não quando identificamos que um jogador mudou de posição, mas quando tentamos perceber porque o fez, o que provocou no adversário e onde apareceu a vantagem a seguir.

Na análise completa, percorremos o jogo com essa profundidade e olhamos para a organização do Bayern em diferentes momentos.

Se quiseres ver os comportamentos que deram origem a esta reflexão dentro do contexto completo do jogo, a análise Dortmund x Bayern já está disponível no Inside.

→ Ver a análise completa no Inside

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