Um ano de Analyst OS. Um mês de Inside.
Hoje faz exatamente um ano desde que comecei a Analyst OS.
Durante este primeiro ano, grande parte do trabalho que desenvolvi passou por partilhar a minha forma de ver e interpretar o jogo.
Nas análises, nos conteúdos, nesta newsletter ou nas consultorias, fui mostrando muito daquilo em que acredito e da forma como construo o meu processo de análise.
Mas o primeiro mês do Inside colocou-me numa posição um pouco diferente.
Em vez de ser apenas eu a mostrar a minha análise, comecei a receber, todas as semanas, trabalhos de várias pessoas a analisar exatamente o mesmo jogo e a tentar responder às mesmas perguntas.
Quatro Desafios Práticos significaram dezenas de vídeos, apresentações e interpretações de pessoas com níveis de experiência muito diferentes.
E, sobretudo, deram-me a oportunidade de acompanhar algumas dessas pessoas de desafio para desafio, perceber onde tinham dificuldades, dar feedback e observar o que começava a mudar nos trabalhos seguintes.
Foi aí que comecei a encontrar alguns padrões.
Porque todos tinham acesso ao mesmo jogo.
Às mesmas imagens.
Às mesmas perguntas.
Mas as análises eram completamente diferentes.
Houve quem identificasse corretamente um comportamento, mas tivesse dificuldade em perceber o que o provocava.
Houve quem encontrasse boas dinâmicas coletivas, mas tentasse colocar tanta informação num único clip que a ideia principal acabava por se perder.
E houve quem, com menos clips, menos animações e menos informação, conseguisse construir uma leitura muito mais clara do problema.
Todos estavam a olhar para as mesmas imagens. Mas não estavam necessariamente a ver o mesmo jogo.
E a diferença não estava apenas no conhecimento tático.
Ao longo deste primeiro mês comecei a perceber três capacidades que apareciam repetidamente nos trabalhos mais conseguidos e, principalmente, na evolução de quem foi melhorando de desafio para desafio:
filtrar informação, relacionar comportamentos e interpretar o contexto.
É sobre essas três mudanças que quero falar esta semana.
Começas a perceber que nem tudo o que vês precisa de entrar na análise
Este foi provavelmente o padrão que mais vezes apareceu nos feedbacks que dei ao longo dos quatro desafios.
Quando estamos a analisar um jogo e identificamos um comportamento, existe uma tendência natural para querer aproveitar essa informação.
Se naquela imagem consigo identificar a posição da linha defensiva, o posicionamento dos médios, o movimento do lateral, a pressão sobre o portador e ainda um espaço que está a ser concedido, parece fazer sentido mostrar tudo.
Afinal, tudo aquilo está a acontecer.
Mas uma das coisas que fui repetindo várias vezes durante este primeiro mês foi uma pergunta muito simples:
O que quero realmente mostrar com esta imagem?
Porque o facto de uma informação estar correta não significa que seja importante para aquilo que estamos a tentar explicar.
Vi clips onde existiam cinco ou seis animações em simultâneo. Setas, linhas, círculos e jogadores destacados, todos a tentar direcionar a atenção de quem estava a assistir.
O problema é que, quando tentamos mostrar tudo, deixamos de orientar o olhar de quem está a assistir.
E isto não acontece apenas na edição.
Começa na própria observação.
Podemos ver um jogo e identificar dezenas de comportamentos interessantes. Mas se estamos a analisar a construção de uma equipa perante pressão alta, precisamos de saber quais deles nos ajudam a responder às perguntas que definimos para esse momento.
É aqui que o processo começa a mudar.
Deixamos progressivamente de utilizar a quantidade de informação como medida da profundidade da análise e começamos a ser mais criteriosos com aquilo que selecionamos.
Um dos participantes do Inside descreveu precisamente esta mudança no feedback que me enviou ao final do primeiro mês:
Aumentei significativamente o rigor no filtro e na seleção dos clips.
Acho que é uma boa forma de resumir aquilo que procuro quando dou este feedback.
Filtrar não significa analisar menos. Significa perceber melhor o que merece chegar à análise final.
E, muitas vezes, quanto mais conseguimos compreender um jogo, mais confortáveis ficamos em deixar informação de fora.
Deixas de olhar para o comportamento isolado e começas a procurar o que o provoca
Este foi outro padrão que apareceu várias vezes nos desafios.
No Desafio #3, por exemplo, analisámos a construção do FC Porto perante a pressão do Benfica.
Houve um comportamento que vários participantes identificaram corretamente: Alan Varela conseguia aparecer muitas vezes de frente para o jogo e dar continuidade à construção do Porto.
A observação estava certa.
Mas havia uma pergunta que comecei a colocar em vários dos feedbacks:
Porque é que Varela consegue receber tantas vezes nessas condições?
Se ficarmos apenas no jogador que recebe, podemos interpretar aquilo como uma boa decisão individual, uma boa ocupação do espaço ou até uma dificuldade do Benfica em controlar aquela referência.
Quando começamos a olhar para aquilo que acontece à volta, a leitura ganha outra dimensão.
Como se posicionam os centrais para atrair a primeira linha de pressão?
Que movimentos fazem os jogadores à volta de Varela?
Que referências são obrigadas a abandonar os médios do Benfica?
Como é utilizada a ligação com o ponta de lança?
Que dinâmicas de terceiro homem permitem voltar a encontrar um médio de frente para o jogo?
O comportamento de Varela continua a ser importante. Mas passa a ser visto como parte de um conjunto de relações que cria as condições para ele aparecer naquela posição.
E esta mudança parece-me fundamental.
O jogo está cheio de ações individuais que são consequência de comportamentos coletivos.
Um extremo recebe isolado no 1x1 porque alguém fixou o lateral por dentro.
Um médio aparece livre entre linhas porque outro jogador arrastou uma referência.
Um central consegue conduzir porque a ocupação dos espaços à sua frente condicionou a forma como o adversário pode pressionar.
Se olharmos apenas para o jogador que recebe a vantagem, estamos muitas vezes a começar a análise já perto do fim da ação.
Um dos feedbacks que recebi este mês dizia precisamente isto:
Hoje consigo estruturar melhor a análise, identificar padrões de comportamento das equipas e perceber o ‘porquê’ das ações, em vez de olhar apenas para o que acontece.
Para mim, é exatamente aqui que começa a existir uma diferença importante entre identificar e interpretar.
Identificar diz-nos o que aconteceu.
Interpretar obriga-nos a procurar as relações que fizeram com que aquilo acontecesse.
E quanto mais desenvolvemos esta capacidade, mais difícil se torna explicar um comportamento olhando apenas para o jogador que o executou.
Começas a responder “depende” mais vezes
Há uma palavra que tenho utilizado cada vez mais quando me fazem perguntas sobre o jogo:
Depende.
Qual é a melhor estrutura para pressionar?
Depende.
Como devemos organizar a construção perante pressão alta?
Depende.
Que jogador deve saltar sobre determinada referência?
Depende.
Qual é a melhor forma de organizar um microciclo?
Também depende.
À primeira vista, pode parecer uma forma fácil de fugir à resposta. Na realidade, aquilo que vem depois do “depende” é provavelmente a parte mais importante do raciocínio.
Depende de quê?
Dos jogadores que temos. Do adversário. Dos comportamentos que queremos provocar. Dos espaços que estamos dispostos a conceder. Das vantagens que queremos criar. Dos riscos que estamos preparados para assumir.
Quanto mais contexto acrescentamos ao problema, mais específica começa a tornar-se a resposta.
E isto é algo que também tenho encontrado nas análises que recebo.
É relativamente comum identificar uma dificuldade e apresentar imediatamente uma solução.
Se uma equipa não consegue pressionar em 4-4-2, mudamos para 4-2-3-1.
Se está exposta na transição defensiva, acrescentamos mais um jogador à estrutura de equilíbrio.
Se não consegue sair da pressão, aproximamos mais um médio da primeira fase de construção.
Todas estas soluções podem estar corretas.
Mas só conseguimos avaliar se realmente fazem sentido quando percebemos o que resolvem, que novas relações criam e aquilo de que estamos a abdicar ao utilizá-las.
Porque cada decisão altera outras coisas.
Adicionar um jogador à construção pode criar superioridade perto da bola, mas também retirar uma referência mais à frente.
Fazer um lateral saltar na pressão pode aumentar a agressividade sobre o portador, mas deixa outro espaço que alguém terá de controlar.
Colocar mais um jogador na estrutura de equilíbrio pode dar maior segurança na perda, mas também retirar presença ao processo ofensivo.
É aqui que o contexto começa a ganhar cada vez mais peso na análise.
Com o tempo, deixamos de procurar uma estrutura ou um comportamento porque acreditamos que é a solução correta e começamos a perguntar:
Que problema quero resolver e o que acontece à minha equipa quando escolho esta solução?
Talvez seja por isso que hoje respondo “depende” muito mais vezes do que respondia quando comecei.
Não porque tenha menos respostas.
Mas porque percebo melhor as perguntas que preciso de fazer antes de chegar a uma delas.
Então, o que é realmente evoluir na análise?
Depois deste primeiro mês do Inside, talvez esta tenha sido a reflexão mais interessante que retirei dos trabalhos que fui recebendo.
Nem sempre a evolução apareceu quando alguém começou a identificar um comportamento que antes não conseguia ver.
Muitas vezes apareceu em coisas menos óbvias.
Na capacidade de olhar para um clip com muita informação e decidir mostrar apenas aquilo que era relevante.
Na passagem de identificar o jogador que recebe livre para tentar perceber tudo aquilo que aconteceu para que ele pudesse receber nessas condições.
Ou na capacidade de não saltar imediatamente para uma solução sem primeiro compreender o problema e o contexto onde ele existe.
Filtrar. Relacionar. Contextualizar.
São três capacidades diferentes, mas estão constantemente ligadas quando tentamos interpretar o jogo.
E nenhuma delas fica concluída.
Continuo a deparar-me com jogos onde tenho dificuldade em perceber determinadas dinâmicas. Continuo a voltar atrás nas imagens, a questionar a primeira interpretação que fiz e a encontrar relações que não tinha identificado inicialmente.
Faz parte do processo.
Um ano depois de criar a Analyst OS, talvez também veja de forma mais clara aquilo que quero que este projeto represente.
E se hoje consigo fazer esta reflexão é também porque, ao longo deste ano, houve cada vez mais pessoas dispostas a partilhar comigo a forma como veem o jogo, a colocar questões e a mostrar o seu próprio trabalho. Obrigado a todos os que têm feito parte deste primeiro ano.
Não quero que quem acompanha o meu trabalho memorize a forma como eu vejo determinado comportamento ou encontre aqui uma coleção de respostas para utilizar no próximo jogo.
Quero criar conteúdo que ajude a pensar melhor o jogo.
A desenvolver critérios para saber onde direcionar o olhar, a questionar aquilo que estamos a observar e a construir um processo que nos permita chegar às nossas próprias respostas.
E este primeiro mês do Inside reforçou ainda mais essa ideia.
Agora gostava de perceber o teu lado:
Qual destas três capacidades sentes que mais limita a tua análise neste momento?
Filtrar informação, relacionar comportamentos ou contextualizar aquilo que observas?
Responde a este email. Quero perceber se os padrões que tenho encontrado nos trabalhos do Inside também aparecem na forma como tu analisas o jogo.
Se não falarmos antes, até para a semana.
Queres colocar isto em prática?
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Recebes o jogo e o objetivo da análise, constróis a tua própria interpretação e podes enviar-me o trabalho para receberes feedback individual sobre aquilo que desenvolveste.
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