Nota #33 - A maioria dos analistas não está no nível que pensa

Nunca houve tanta gente a analisar futebol.

Mas isso não significa que o jogo esteja a ser melhor compreendido.

Cada vez mais pessoas querem entrar na análise.

Veem jogos todos os dias.

Usam ferramentas.

Fazem relatórios.

E isso, à partida, parece evolução.

Mas nem sempre é.

Porque há uma diferença grande entre acompanhar o jogo… e analisá-lo.

E essa diferença nem sempre é evidente.

Confunde-se opinião com análise.

Descrição com interpretação.

Atividade com evolução.

Fala-se do jogo… mas não se explica o jogo.

E quando não consegues explicar o jogo…não consegues ajudar ninguém a tomar melhores decisões.

E isso cria uma ilusão perigosa.

A ideia de que, com mais tempo, mais jogos e mais ferramentas, a evolução vai acontecer naturalmente.

Mas não vai.

Porque evoluir na análise não é apenas uma questão de volume.

É uma questão de direção.

E é precisamente aqui que a maioria dos analistas se perde.

Não por falta de esforço.

Mas por não perceberem onde estão… nem o que lhes falta para dar o próximo passo.

Na prática, a maioria move-se dentro de padrões muito claros.

Níveis de desenvolvimento que não dependem de quanto trabalhas…mas da forma como pensas o jogo.

E é isso que vamos explorar.

Os níveis de um analista

Ao longo do tempo, fui percebendo que este padrão se repete.

Não só pela minha própria experiência.

Mas também pelo contacto que tenho tido com analistas em diferentes fases do seu percurso, ao longo do desenvolvimento da Analyst OS.

Independentemente do contexto, da função ou do nível competitivo.

Os problemas tendem a ser os mesmos.

E acabam por organizar-se de forma bastante clara.

Não como rótulos.

Mas como fases de desenvolvimento.

Formas de estar na análise.

E, sobretudo, formas de pensar o jogo.

Podemos agrupá-las em cinco níveis.

E perceber em que ponto estás…é muitas vezes o primeiro passo para conseguires evoluir.

Nível 1️⃣ — O Adepto Disfarçado

No início, quase todos passam por aqui.

Gostam de futebol.

Porque jogaram ou porque veem muitos jogos.

Acompanham equipas, competições, contextos diferentes.

E isso cria uma sensação de proximidade com o jogo, ou mais grave ainda, falsa sensação de conhecimento do jogo.

Neste nível, a análise fica na superfície.

Descreve-se o que aconteceu.

Reage-se ao momento.

Comenta-se o que se vê.

Mas raramente se explica.

Confunde-se opinião com análise.

E isso é mais comum do que parece.

Porque muitas vezes o discurso até pode soar certo.

Mas falta-lhe profundidade.

Falta-lhe critério.

Falta-lhe intenção.

No fundo, não se está a analisar o jogo.

Está-se a falar sobre ele.

E isso significa que, mesmo quando acertas na leitura…não consegues justificar porquê.

E sem justificar… não consegues sustentar.

Nível 2️⃣ — O Iludido das Ferramentas

Com o tempo, surge a necessidade de evoluir.

E a evolução, muitas vezes, começa pelas ferramentas.

Softwares de vídeo.

Plataformas de dados.

Organização de clips.

E, de repente, há progresso.

Ou pelo menos, a sensação de progresso.

Os vídeos ficam mais organizados.

Os relatórios mais estruturados.

A linguagem mais técnica.

Mas há um problema.

A forma melhora…mas o conteúdo não acompanha.

Porque a ferramenta não resolve o que está por trás.

Não define para onde olhar.

Não ajuda a perceber o que é relevante.

Não cria critério.

E, por isso, a informação continua dispersa.

Mais bem apresentada.

Mas não necessariamente mais útil.

Porque quando alguém te pergunta o que realmente importa naquele jogo… a ferramenta não responde por ti.

É aqui que muitos ficam.

A trabalhar melhor…sem estar realmente a analisar melhor.

Nível 3️⃣ — O Analista Sem Norte

Com o tempo, muitos percebem que há mais para além daquilo que estão a fazer.

Percebem que precisam de elevar as suas análises para outro patamar.

Mas é aqui que surge o verdadeiro problema.

Não sabem como o fazer, não estão seguros de para onde olhar.

Perdem-se no jogo.

Têm dificuldade em direcionar o foco.

Vêm demasiadas coisas.

Mas não sabem o que é realmente importante.

Falta-lhes critério.

Falta-lhes direção.

Falta-lhes uma estrutura de pensamento que lhes diga:

➡️ o que observar

➡️ quando observar

➡️ e porquê

E isso reflete-se nas decisões.

Mostram demasiado.

Ou mostram coisas que não têm impacto real.

Porque ainda não conseguem ligar aquilo que veem… com aquilo que precisa de ser decidido.

É neste nível que a maioria fica presa.

Continuam sem conseguir transformar o seu trabalho em análises com valor.

Porque, mesmo vendo muito, não conseguem decidir com clareza o que é realmente importante.

E isso nota-se no produto final.

Análises com demasiada informação.

Sem foco.

Sem hierarquia.

E quando tudo parece relevante…

Nível 4️⃣ — O Operacional Sobrecarregado

Alguns conseguem dar o passo seguinte.

Já têm conhecimento de jogo.

Já conseguem identificar padrões.

Já produzem análises com algum valor.

Mas o problema muda de forma.

Já não está tanto no que veem.

Está na forma como trabalham.

O processo não está controlado.

O workflow é desorganizado.

O tempo não chega.

Tudo parece urgente.

E isso tem impacto direto na qualidade.

Os vídeos acumulam informação.

Os clips não são bem codificados.

A mensagem perde-se.

Quem recebe a análise…nem sempre consegue interpretá-la com clareza.

Porque falta uma coisa essencial: estrutura.

Não só na análise.

Mas na forma como ela é construída e entregue.

E sem estrutura, quem recebe a análise não decide melhor.

Apenas recebe mais informação.

Nível 5️⃣ — O Analista com Método

E depois há um ponto em que tudo começa a alinhar.

Porque se começa a pensar o jogo de forma diferente.

Há critério.

Há intenção.

Há método.

Sabe-se para onde olhar.

Sabe-se o que filtrar.

Sabe-se o que realmente importa.

Mas o que realmente separa este nível dos outros…não é só o conhecimento.

É a forma como a análise é transformada em algo útil.

Aqui, não se mostra tudo.

Mostra-se o essencial.

Com clareza.

Com lógica.

Com intenção.

E isso vê-se sobretudo no vídeo.

A análise deixa de ser um conjunto de clips.

Passa a ter narrativa.

Um fio condutor.

Uma sequência que faz sentido.

Como num bom filme.

Quem vê… entende.

Sem esforço.

Sem necessidade de explicação constante.

E isso muda tudo.

Porque a análise deixa de ser apenas informação.

Passa a influenciar decisão.

O VERDADEIRO PROBLEMA

Depois de tudo isto, o padrão torna-se claro.

O problema não está na quantidade de jogos que vês.

Nem no quanto gostas de futebol.

Nem nas ferramentas que utilizas.

Nem sequer no tempo que dedicas.

O problema está na forma como pensas o jogo.

Porque é isso que define tudo o resto.

Define para onde olhas.

Define o que valorizas.

Define o que decides mostrar.

E, acima de tudo, define o impacto da tua análise.

É por isso que muitos analistas trabalham muito…mas evoluem pouco.

Não por falta de esforço.

Mas por falta de direção.

A análise não falha por falta de informação.

Falha por falta de critério.

Porque analisar não é acumular momentos.

É escolher.

Escolher o que importa.

Escolher o que mostrar.

E assumir essa escolha.

É por isso que dois analistas podem ver exatamente o mesmo jogo…e chegar a conclusões completamente diferentes.

Ver os mesmos comportamentos.

Os mesmos momentos.

As mesmas situações.

Mas entregar produtos finais completamente distintos.

Não por aquilo que viram.

Mas pela forma como pensaram o jogo.

Pelo nível em que estão.

Pelo critério que têm.

E pela capacidade de transformar aquilo que observam…em algo que realmente faz a diferença.

E é aqui que tudo muda.

Porque perceber em que nível estás…não chega.

É preciso ter um caminho claro para sair dele.

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