Nota #29- Análise de adversário: o verdadeiro desafio

A análise de adversário tornou-se uma parte obrigatória da preparação para o jogo.

Hoje, em qualquer contexto competitivo, espera-se que as equipas conheçam o adversário que vão enfrentar.

Como constrói.

Como defende.

Onde cria perigo.

Onde pode ser explorado.

Nunca houve tanta informação disponível.

Há mais jogos acessíveis.

Mais plataformas de vídeo.

Mais dados.

Mais ferramentas de análise.

Mas curiosamente, quanto mais informação existe, maior se torna a dificuldade em analisá-la bem.

Nos últimos meses tenho recebido várias mensagens de analistas e treinadores que trabalham neste processo.

E muitas dessas conversas acabam por chegar sempre à mesma dúvida:

“Quando começo a analisar um adversário, o que devo realmente procurar?”

Porque o problema raramente está em ver o jogo.

O verdadeiro desafio está em saber o que procurar dentro dele.

Sem essa clareza, a análise rapidamente se torna num processo pesado: muitos jogos observados, muitas notas acumuladas e muitos detalhes registados…

Mas pouca informação realmente útil para a preparação do jogo.

E é precisamente aqui que surgem três dificuldades muito comuns na análise de adversário.

1️⃣ Primeira dificuldade: quando tudo parece importante

Depois de começar a observar um adversário, surge rapidamente uma sensação que muitos analistas conhecem bem.

Quase tudo parece importante.

Num único jogo aparecem constantemente novos detalhes que parecem relevantes para a análise.

Cada sequência acrescenta mais informação.

E sem um critério claro de observação, o analista começa muitas vezes a fazer aquilo que parece mais natural naquele momento.

Tomar nota de tudo.

Anota um padrão de saída.

Marca um clip de construção.

Regista um comportamento defensivo.

Guarda um lance de transição.

Assinala um detalhe numa bola parada.

Ao fim de algum tempo existem muitas notas, muitos clips e muitos comportamentos registados.

Mas surge um problema.

Quando chega o momento de organizar essa informação, torna-se difícil perceber o que é realmente determinante no jogo daquela equipa.

Porque a análise acabou por recolher muitos detalhes…mas nem sempre conseguiu identificar o que realmente define o adversário.

E é aqui que surge uma das maiores dificuldades da análise de adversário.

Não é apenas observar.

É saber separar o essencial do acessório.

2️⃣ Segunda dificuldade: escolher os jogos errados

Mas existe outra dificuldade que aparece ainda antes da análise propriamente começar.

A escolha dos jogos que vão ser observados.

À primeira vista, esta decisão parece simples.

Se queremos analisar um adversário, basta observar alguns dos seus jogos recentes.

Mas na prática, este passo pode condicionar toda a análise.

Porque nem todos os jogos representam verdadeiramente o comportamento habitual de uma equipa no contexto que nós iremos defrontar.

Uma equipa pode apresentar comportamentos muito diferentes consoante o contexto do jogo.

Num jogo específico, uma equipa pode adaptar-se ao adversário, alterar a sua estrutura ou apresentar comportamentos que não são os mais frequentes no seu modelo de jogo.

Se esses jogos forem escolhidos como referência para a análise, o analista pode acabar a estudar exceções em vez de padrões.

Por isso, a seleção dos jogos não deve ser feita de forma aleatória.

Existem alguns critérios que ajudam a garantir que os jogos observados representam melhor o comportamento real da equipa:

➡️ O nosso próprio jogo contra esse adversário, quando existe

➡️ Jogos contra equipas com ideias semelhantes às nossas

➡️ Recência, para perceber o momento atual da equipa

➡️ Jogos contra adversários de nível competitivo semelhante

➡️ Histórico entre treinadores, quando já existiram confrontos anteriores

Estes critérios ajudam a reduzir o risco de analisar comportamentos que surgiram apenas num contexto muito específico.

Porque quando os jogos são mal escolhidos, a análise deixa de refletir uma antecipação de como a equipa pode jogar contra nós.

3️⃣ Terceira dificuldade: transformar observação em decisão

Mas existe ainda um terceiro problema que aparece com muita frequência.

Mesmo quando a observação é boa.

Mesmo quando os padrões do adversário são identificados.

A análise nem sempre consegue responder à pergunta mais importante.

O que fazemos com esta informação?

No final do processo, o treinador não precisa apenas de saber como o adversário joga.

Precisa de perceber algo muito mais prático:

➡️ onde estão as oportunidades para explorar

➡️ onde estão os principais riscos

➡️ que decisões podem ser tomadas para o jogo

Ou seja, a análise tem de conseguir transformar observação em informação útil para a tomada de decisão.

E para isso existe um detalhe que muitas vezes é esquecido no processo de análise.

A análise não é feita para o analista.

É feita para o treinador que vai receber essa informação.

Podemos ter ideias de jogo diferentes.

Podemos olhar para os momentos do jogo de forma distinta.

Podemos até interpretar certos comportamentos do adversário de maneira diferente.

Mas a análise precisa de responder às perguntas que o treinador precisa de resolver para preparar o jogo.

Caso contrário, acontece algo relativamente comum.

A análise descreve bem o adversário.

Mas nem sempre ajuda a decidir como devemos jogar contra ele.

E quando isso acontece, o relatório pode estar cheio de detalhes, clips e observações… mas ter pouco impacto real na preparação do jogo.

Os dois momentos da análise de adversário

Com o tempo comecei a perceber uma coisa.

Muitos problemas que aparecem durante a análise de adversário não começam no momento da observação.

Começam antes de abrir o vídeo.

Na forma como o processo de análise é preparado.

Na escolha dos jogos que vão ser observados.

E na estrutura utilizada para organizar a informação.

Quando esses passos não estão claros, a observação torna-se mais confusa, a informação acumula-se sem direção e torna-se mais difícil transformar aquilo que vemos em decisões úteis para o jogo.

Por isso comecei a organizar o processo de análise de uma forma muito simples.

Dividindo-o em dois momentos distintos.

O primeiro acontece antes da observação.

É a fase de preparação da análise, onde procuramos compreender o contexto competitivo do adversário, selecionar os jogos mais relevantes e recolher a informação que ajuda a enquadrar aquilo que vamos observar.

O segundo momento acontece durante a observação.

Aqui o objetivo passa a ser identificar os comportamentos da equipa nos diferentes momentos do jogo:.

A observação passa a ser um processo de identificação de padrões claros de comportamento.

Uma checklist para estruturar o processo

Com base no feedback que tenho recebido, pensei que poderia fazer sentido criar uma checklist que possa ajudar a estruturar o pensamento e o olhar para aquilo que deve ser análise de adversário.

Não é uma metodologia rígida.

Nem pretende substituir a interpretação do analista.

Serve apenas para uma coisa: organizar o processo de observação.

A ideia é simples.

Garantir que, antes de começar a ver o jogo, existem alguns critérios claros para preparar a análise.

E que, durante a observação, os diferentes momentos do jogo são analisados de forma estruturada.

No fundo, é apenas uma forma de transformar aquilo que muitas vezes acontece de forma intuitiva num processo mais organizado.

Dividindo a análise exatamente nos dois momentos que vimos anteriormente:

antes da observação e durante a observação.

Decidi reunir essa estrutura num pequeno documento que podes utilizar no teu próprio processo de análise.

Uma ferramenta simples para ajudar a estruturar a análise de adversário, desde a preparação inicial até à observação dos diferentes momentos do jogo.

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